
18/07/2024
A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) apura suspeita de crime ambiental que pode ter resultado na morte de dezenas de toneladas de peixes em Piracicaba (a 157 km de São Paulo).
Na última segunda-feira (15), a região do Tanquã, conhecida como mini Pantanal paulista, amanheceu coberta por um tapete formado por peixes mortos. O órgão ambiental ainda vai avaliar a quantidade exata de animais atingidos.
A suspeita é que a morte dos animais no rio do interior de São Paulo possa ter sido provocada por despejo irregular de substâncias pela Usina São José S/A Açúcar e Álcool. A empresa, em nota, nega irregularidades.
"Após cinco inspeções realizadas pela Cetesb nas dependências da usina, nada foi informado à empresa formalmente que explique o motivo ou a origem da morte de peixes registrada nos últimos dias. Insinuações de envolvimento da usina nessa ocorrência são precoces e não têm, até agora, qualquer comprovação ou fundamento", diz a companhia.
"A empresa lembra que diversos incidentes envolvendo morte de peixes no rio Piracicaba vêm ocorrendo nos últimos anos, período este que a Usina São José estava inativa, tendo retomado suas atividades somente em maio deste ano."
De acordo com a Cetesb, a multa aplicada pode chegar a R$ 50 milhões. O valor pode ser ainda maior se as análises indicarem agravamento do dano à natureza.
O órgão tem realizado coletas constantes de amostras da água para averiguar a situação do rio. Nesta terça, técnicos retornaram ao Tanquã para realizar nova pesquisa.
Imagens do rio mostram uma grande quantidade de peixes, de diversas espécies, mortos na superfície da água. Segundo o órgão estadual, o fenômeno decorre de um descarte irregular que pode ter sido cometido pela usina de etanol e açúcar localizada no município de Rio das Pedras, na região de Piracicaba.
O Tanquã é abastecido pelo rio Piracicaba. Segundo a prefeitura do município, a mortandade de peixes é observada em alguns trechos do rio desde o último dia 7, quando teria ocorrido o descarte da substância.
Segundo a administração, somente na última quinta (11) foram recolhidas 2,9 toneladas de peixes. A ação antecedeu a nova onda de mortes no Tanquã. Nesta quarta (17), a prefeitura disse à Folha que pretende começar um novo trabalho de remoção nesta quinta (18), por meio de contrato emergencial com empresa especializada.
Um laudo deve ser concluído pela Cetesb até a próxima sexta-feira (19), indicando a substância despejada na água e a penalidade a ser aplicada. A entidade também notificou a usina para que faça a retirada imediata dos peixes do Tanquã.
À Folha o diretor de licenciamento e controle do órgão, Adriano Queiroz, explica que o material descartado pela empresa é 20 vezes mais poluente que esgoto bruto e resulta em diminuição instantânea do oxigênio da água.
"A carga orgânica obtida pelas amostras é muito elevada, de modo que o próprio rio não dá conta de dissolver essa poluição, sobretudo na área do Tanquã, de águas calmas, menor profundidade e menor movimentação da água que, naturalmente, promove oxigenação através do contato com a atmosfera", diz Queiroz.
As últimas amostras no rio indicam 3.000 mg de O2 (oxigênio) por litro. Já a oxigenação da água no local onde aconteceu a tragédia estava inferior a 1 mg de oxigênio por litro, quando o índice ideal para a água ser considerada boa é superior a 5 mg/l.
Segundo a Cetesb, a usina tem licença ambiental para realizar suas operações até 2025, mas estava com as operações paralisadas e retomou as atividades sem notificar o órgão.
O descarte aconteceu no ribeirão Tijuco Preto, que deságua no rio Piracicaba. Entre o ponto de partida do material e o Tanquã, a substância deve ter percorrido cerca de 80 km, calcula o órgão ambiental.
"O estrago não foi maior pois em outras áreas o rio tem mais corredeiras e maior capacidade de dissolver o composto orgânico. O problema se agrava mesmo em áreas onde o produto se concentra e impede a reabilitação da natureza", destaca Queiroz.
A Cetesb solicitou à empresa concessionária da usina hidrelétrica Salto Grande, em Americana, o vertimento de águas de seu reservatório, para um aumento no volume de água do rio Piracicaba que pode amenizar o problema e elevar a oxigenação.
Piracicaba é reconhecida no interior paulista pelo turismo que sobrevive às margens do rio. Um exemplo é a rua do Porto, que concentra dezenas de restaurantes cuja culinária é abastecida por peixes provenientes da pesca local. Não há indícios de que a contaminação possa prejudicar a atividade.
Em nota, a prefeitura da cidade disse ainda que acionou o Ministério Público Estadual para apurar o caso e que pede que a prefeitura de Rio das Pedras seja responsabilizada pela contaminação. O órgão respondeu à imprensa, durante a tarde, que vai apurar o caso.
Fonte: Folha de S. Paulo
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