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Mudanças climáticas elevaram em até 20 vezes chances de incêndios em parte da Amazônia

20/08/2024

As mudanças climáticas aumentaram em pelo menos três vezes as chances de ocorrência das condições favoráveis para incêndios florestais sem precedentes no Canadá e em até 20 vezes na Amazônia Ocidental entre março de 2023 e fevereiro de 2024, elevando as emissões de gases de efeito estufa, causando devastação ambiental e provocando mortes de moradores.
Pesquisa internacional divulgada nesta quarta-feira (14) conclui que, apesar de a área global queimada ter sido próxima à média de anos anteriores —cerca de 3,9 milhões de km2, o que corresponde a mais do que o território da Índia—, as emissões por incêndios no mundo ficaram 16% acima da média. Totalizaram 8,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (Gt CO2), ou seja, a sétima mais alta desde 2003.
O primeiro relatório State of Wildfires, que passará a ser anual, foi publicado na revista científica Earth System Science Data. Ele analisa os incêndios florestais (com vegetações/ecossistemas diversos), identificando eventos extremos, e avalia as causas, previsibilidade e atribuição desses eventos às mudanças climáticas e ao uso da terra, apontando riscos futuros sob diferentes cenários.
Para isso, foram desenvolvidas ferramentas e reunidos dados de todos os países, com uso de inteligência artificial, visando compreender e prever incêndios extremos para fornecer informações práticas a tomadores de decisão e à sociedade. Um painel com os resultados está disponível online.
De acordo com a pesquisa, a temporada de incêndios na Amazônia Ocidental (que inclui os estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia) foi impulsionada por secas prolongadas ligadas ao El Niño.
Essas secas aliadas às condições meteorológicas explicaram 68% dos incêndios, mas ações antrópicas, como desmatamento, agricultura e fragmentação de paisagens naturais, também tiveram influência. De maneira geral pelo mundo, as causas que levaram aos incêndios foram múltiplas.
Coliderado pela Universidade de East Anglia, pelo Met Office, pelo Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido (UKCEH) e o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), o estudo teve a participação de três brasileiros entre os 44 pesquisadores.
"A ideia foi criar um panorama global por meio da reunião de especialistas regionais para destacar a situação do fogo no mundo. Foi importante reunir essa expertise regional, com um time diverso tanto de países como de áreas de conhecimento", explica à Agência Fapesp Maria Lucia Ferreira Barbosa, uma das brasileiras que assinam o artigo.
"Outro ponto interessante é a atualização rápida dos dados do ano anterior, com um desenvolvimento contínuo dos modelos. Com isso, esperamos ter a cada ano previsões e diagnósticos mais robustos para acesso não só da pesquisa como para pensar em estratégias visando lidar com os impactos", diz ela, que cursou o doutorado no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e atualmente está na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).
Pesquisadora no Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e também autora do trabalho, a bióloga Liana Anderson destaca a importância de "entender o passado e o presente para pensar formas de prevenção para o futuro".
"Olhando as regiões ao longo do tempo é possível identificar novos pontos de atenção. Temos uma base de dados aberta, pública, acessível e online, permitindo que diferentes tipos de pesquisa sejam realizados para responder a uma infinidade de questões", afirma.
"Precisamos entender o que o fogo significa em termos de barreiras para atingirmos as metas do desenvolvimento socioeconômico e ambientais no Brasil e as consequências das queimadas na perda de biodiversidade, no empobrecimento da população e na segurança alimentar, por exemplo."
Ao tratar da América do Sul na pesquisa, o grupo aponta que, no geral, a região teve uma extensão de incêndios pouco abaixo da média. Mas o estado do Amazonas foi uma exceção, com número de incêndios atingindo níveis recordes devido à seca histórica e impactando severamente a qualidade do ar.
Cidade mais populosa da Amazônia, Manaus ficou com a segunda pior qualidade de ar no mundo em outubro de 2023, expondo mais de 2 milhões de moradores.
Os cientistas citam que o acontecimento foi tão grave que, em novembro de 2023, o Ministério Público Federal abriu ação civil contra o estado do Amazonas, exigindo provas de que havia investimento em prevenção e combate a incêndios, conforme previsto no Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Incêndios. Neste mês de agosto, Manaus voltou a ser atingida pela fumaça das queimadas.

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