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Papagaios da Amazônia estão mudando seus sotaques

26/09/2024

Assim como uma pessoa que passa muito tempo fora de sua região natal pode perder características de seu sotaque e até começar a adotar a pronúncia do local onde vive, alguns animais também podem passar por mudanças semelhantes. Um estudo recente revelou que os papagaios-de-nuca-amarela da Amazônia, conhecidos cientificamente como Amazona auropalliata, estão alterando seus dialetos, ou seja, seus “acentos regionais”. Especialistas sugerem que, apesar de possíveis desafios para reprodução, essa mudança pode ser um indício de adaptação da espécie.
Esses papagaios, que habitam a costa do Pacífico, sempre apresentaram uma peculiaridade intrigante: eles ajustam sua forma de comunicação conforme a região onde se encontram. Os sons que emitem – como gritos, assobios e chamados – variam sutilmente de acordo com o grupo.
Desde 1994, cientistas têm observado esses dialetos regionais, mas entre 2005 e 2016, pesquisadores da New Mexico State University e da University of Pittsburgh notaram uma curiosa mistura desses “sotaques”. Sons anteriormente exclusivos dos papagaios do sul começaram a ser emitidos no norte, e alguns desses papagaios passaram a ser “bilíngues”, conseguindo fazer chamadas com sotaques de ambas as regiões.
Os pesquisadores acreditam que essa capacidade pode representar uma vantagem evolutiva significativa, pois papagaios “poliglotas” conseguem se comunicar com um número maior de grupos, o que pode facilitar o compartilhamento de informações essenciais, como a localização de alimentos ou de áreas seguras para descansar.
Os cientistas sugerem que essas mudanças nos dialetos dos papagaios podem ser uma resposta adaptativa ao novo contexto que esses animais enfrentam.
Infelizmente, o papagaio-de-nuca-amarela sofreu uma queda populacional drástica, perdendo mais de 92% de seus indivíduos nas últimas três gerações. Isso se deve principalmente à destruição de seu habitat natural, grandes queimadas e à captura ilegal para o comércio de animais.
Até os anos 1990, os papagaios possuíam três sotaques principais — um no norte, outro no sul e um terceiro na Nicarágua. Porém, desde 2016, os pesquisadores notaram o surgimento de quatro novas variantes nos chamados dos papagaios, além de um aumento significativo no número de papagaios “bilíngues”, que conseguem emitir sons típicos de diferentes regiões.
De acordo com os autores do estudo, essas mudanças culturais estão ligadas ao tamanho dos grupos e à forma como interagem. A bióloga Christine Dahlin, uma das pesquisadoras, explica que “as mudanças culturais observadas podem ser respostas adaptativas às alterações no tamanho dos grupos e nos padrões de associação social”.
Os dialetos vocais são um exemplo claro de cultura animal, e isso vai além dos papagaios, sendo observado também em pássaros, morcegos, baleias e golfinhos. Assim como os humanos, que têm sotaques diferentes conforme a região, os animais usam seus dialetos para se identificar e fortalecer laços sociais, promovendo o que os cientistas chamam de coesão social.
Dada a importância dos dialetos nos sistemas sociais dos animais, Dahlin e sua equipe ressaltam a necessidade de mais pesquisas sobre como a evolução cultural responde às mudanças causadas pelo ser humano.
As novas condições de habitat parecem estar forçando os papagaios a se adaptarem rapidamente. No sul, grandes distâncias entre áreas de descanso promovem uma “deriva cultural”. Já no norte, onde os pontos de repouso são mais próximos, os papagaios estão aprendendo os sons de outras espécies para reduzir a competitividade com seus vizinhos.
Mas essas mudanças podem ser benéficas ou prejudiciais para os papagaios? Os pesquisadores ainda estão investigando. Algumas mudanças podem ser perturbadoras, exacerbando o declínio populacional, enquanto o aumento de papagaios bilíngues pode indicar que estão encontrando formas de sobreviver.
Monitorar esses comportamentos culturais, como a mudança nos dialetos, pode ajudar a compreender os impactos causados pelo ser humano, a dinâmica populacional e como conservar a espécie.
O estudo foi publicado no The Royal Society Publishing.

Fonte: Florestal Brasil

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