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Pelos sexos de cobras e tartarugas, biólogo Patrik Viana olha para futuro climático de répteis

10/10/2024

A quase morte de uma jiboia permanece viva na memória de Patrik Ferreira Viana, 33. A intercessão de sua mãe junto aos quase assassinos salvou o animal e talvez tenha, acidentalmente, mostrado um caminho para Viana. Hoje, além de dedicar parte de sua pesquisa à espécie e sua família —à da serpente, Boidae—, tenta entender como a crise climática, mais uma ameaça humana, pode afetar outro réptil, as tartarugas-da-Amazônia.
Viana, pesquisador do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), é um dos nomes escolhidos para participar da série Folha Descobertas, iniciativa da Folha em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein.
Grande parte da pesquisa dele é destinada à compreensão da determinação sexual na herpetofauna, que são os anfíbios e répteis.
Estamos acostumados à ideia de que a determinação de sexo biológico dos animais seja feita por meio do que chamamos de cromossomos sexuais, ou seja, basicamente, a ausência de um cromossomo e presença de outro (o X e o Y, nos humanos, por exemplo, e também presente nos Boidae).
É também a partir de cromossomos sexuais que alguns répteis, como as serpentes estudadas por Viana, têm o sexo determinado. Em outros animais dessa classe, porém, é a temperatura o principal componente para o sexo do bichinho que virá ao mundo.
Viana, então, passou a tentar compreender se a história dos cromossomos sexuais nas serpentes, mais especificamente na família Boidae, era algo tão antigo quanto a própria origem da família. Era necessário olhar para além da Amazônia e do Brasil e ver as serpentes aparentadas, separadas pela distância, por terra e oceanos. Para isso, olhou também, por exemplo, para a família Pythonidae, que ocorre na África e na Ásia.
Expandindo além dos Boidae, o pesquisador diz que observou algo muito mais complexo do que imaginava.
"Acabei comparando os cromossomos sexuais ao longo da história evolutiva das serpentes, ou seja, peguei grupos muito antigos, grupos intermediários e grupos mais recentes ao longo da história evolutiva e comparei o cromossomo sexual deles", diz o cientista. "Eu consegui descobrir que esses animais possuem cromossomos sexuais de origem independente. Nesses grupos mais antigos eles tiveram uma origem e nos grupos intermediários, nos grupos mais recentes, eles tiveram uma origem completamente diferente. Basicamente uma convergência evolutiva no modo de determinação do sexo."
Segundo Viana, os répteis são um grupo muito interessante para o estudo da evolução da determinação sexual.
De um lado estão as serpentes que, como visto acima, possuem cromossomos sexuais apontando o sexo. De outro, estão os lagartos, um grupo irmão das serpentes, onde ocorre uma "salada" na determinação de sexo, com animais que o fazem por meios de cromossomos sexuais XY e ZW (em linhas gerais, no primeiro a definição do sexo ocorre pelo lado do pai e, no segundo, pela mãe) e outros por meio de variáveis de temperatura —especialmente os graus Celsius sob os quais os ovos são incubados.
A mesma mistura de formas de determinação sexual é vista nos quelônios, afirma o pesquisador.
O que Viana conseguiu concluir durante suas pesquisas —parte delas premiada, em 2021, com o prêmio Capes na categoria Ciências Biológicas I— é uma espécie de transição, de vai e vem no decorrer da história evolutiva, dentro dos répteis, entre determinação sexual por meio de temperatura e por cromossomos sexuais.
"Essas transições entre temperatura e genes e cromossomos sexuais ocorrem, e já foram muito bem documentadas em vários grupos animados, em seu próprio passo evolutivo, a seu próprio tempo, ao longo de milhares e milhares de anos", diz Viana, apontando as diferentes pressões evolutivas, como a temperatura do planeta, que podem entrar nessa equação de evolução das espécies.
Ao ler as palavras "temperatura" e "planeta" juntas, talvez, neste momento, você já sinta do que vamos falar em seguida. Sim, a crise climática.

Conclua a leitura desta matéria clicando na Folha de S. Paulo

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