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Negacionismo climático 2.0 aposta no desespero

15/10/2024

Em 13 dias, dois furacões varreram a Flórida e outros estados dos EUA. Pelo menos duas centenas de mortos, mais de US$ 100 bilhões de prejuízos –e, como na guerra, com as primeiras vítimas pereceu também a verdade.
A tempestade tropical Milton evoluiu para furacão força máxima (5) em 48 horas. Desencadeou 150 tornados. Ao tocar o litoral, na quarta-feira (9), já havia caído para força 3, mas ainda levantou ressaca de três metros.
A devastação de 26 de setembro pelo furacão anterior, Helene, fez mais de 230 vítimas. As mortes do Milton ainda serão contadas. Para especialistas, é patente que o nível de mortandade e destruição da dupla pancada é resultado direto do aquecimento global.
As águas do Atlântico estão quentes como nunca e ciclones se alimentam da temperatura do mar para crescer. Nesta temporada de furacões, é como se tivessem aumentado a chama do fogão e a panela atmosférica entrou em ebulição.
É a explicação científica, mas não está entre as que produzem mais "engajamento" nas redes. Milhões de norte-americanos veem e replicam posts sobre a fábula de que o governo democrata manipula o clima para castigar estados republicanos.
Esse paroxismo de empulhação pede para ser batizado como negacionismo 2.0. Para sustentar a ideologia que inocenta combustíveis fósseis pela crise climática, mandam-se às favas os escrúpulos de consciência e ciência.
O negacionismo 1.0 era mais civilizado. Pagava-se a pesquisadores com vocação para ideólogos pelo serviço de semear dúvidas sobre o aquecimento global ou a responsabilidade humana por ele –como haviam feito com o elo entre tabagismo e câncer.
Naomi Oreskes e Erik Conway documentaram essa propaganda travestida de ciência no livro "Merchants of Doubt" (2010), ainda sem tradução no Brasil. A produção deliberada de ignorância deu origem a um campo acadêmico novo, a agnotologia.
Bom seria se ainda estivéssemos nessa enganação primitiva. Algo como o negacionismo 1.3 da conversa sobre financiar a transição energética com renda do petróleo. Ou, então, a proposta de estourar a meta de Paris (1,5ºC) e depois enfiar a pasta de dente de volta no tubo (captura e estocagem de carbono).
Mais que denunciar fabuladores como a deputada trumpista Marjorie Taylor Greene a falar de manipulação do clima, ou deplorar a falta de noção científica de quem vai na sua onda, falta entender por que cada vez mais gente consome essas patacoadas. O primeiro passo foi entender a oferta de inverdades, mas não iremos até a esquina sem elucidar a demanda por elas.
O rebaixamento do limiar de verossimilhança e credibilidade deve ter a ver com o grau de desamparo das pessoas comuns diante do sofrimento que a mudança do clima e o aceleracionismo capitalista lhes impõem. Só forças ocultas portentosas poderiam explicar tamanho descaso com a tragédia mais que anunciada.
Antes se dizia que o pior cego é o que não quer ver; agora o pior cego é o que quer ver, qualquer coisa, mesmo a mais inacreditável, desde que combine com as falsidades de pastores, (ex)coaches, demagogos ou influenciadores a quem se agarram. Não mais viés de confirmação, mas compulsão de confirmação.

Fonte: Folha de S. Paulo

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