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Aquecimento global leva a migração planejada: a ilha panamenha que está sendo engolida pelo mar

05/06/2025

Não se ouve mais o riso das crianças correndo pelas ruas estreitas de Gardí Sugdub. Tudo mudou desde que quase todos os seus habitantes indígenas fugiram há um ano desta pequena ilha no Caribe panamenho, que será engolida pelo mar.
A calma contrasta com a turbulência daqueles dias de junho, quando cerca de 1.200 indígenas gunas foram levados de barco para uma nova vida em terra firme, uma das primeiras migrações planejadas na América Latina devido à mudança climática.
Delfino Davies, que tem um pequeno museu na ilha com lanças, jarros e ossos de animais, conta à AFP que a "tristeza" veio após o êxodo: "Tudo ficou tão silencioso quanto uma ilha morta".
Agora, tudo o que resta da escola são carteiras empoeiradas e salas de aula vazias. Muitas das casas, feitas de madeira e junco, estão trancadas com cadeado.
"Vazio. Não tem ninguém aqui. Às vezes fico triste quando estou aqui sozinha", admite Mayka Tejada, de 47 anos, na pequena loja onde vende bananas, roupas, brinquedos, cadernos e abóboras.
Ela, assim como Davies e outras quase 100 outras pessoas, decidiu ficar. Mas sua mãe e dois filhos, de 16 e 22 anos, se mudaram para uma das 300 casas construídas pelo governo panamenho no novo bairro "Isber Yala", a 15 minutos de barco e mais cinco minutos de carro.
Antes espremida em seu território de 400 metros de comprimento e 150 metros de largura, Gardí Sugdub é uma das 49 ilhas povoadas das 365 que compõem o paradisíaco arquipélago de Guna Yala - também conhecido como San Blas - cujo desaparecimento, segundo estudos científicos, ocorrerá antes do final do século.
Na penumbra de sua cabana de chão de terra, sentada em uma rede, Luciana Pérez, de 62 anos, coloca contas amarelas em um colar. O lugar está impregnado com o aroma das brasas que queimam no chão onde ela cozinha ervas medicinais.
"Nasci em Gardí e vou morrer aqui. Nada está afundando. Os cientistas não sabem, só Deus", garante. Ela não tem medo, diz, porque todo mês de dezembro, desde criança, vê as ondas fortes e a água que sobe até inundar as casas.
Segundo Steven Paton, do Instituto Smithsoniano de Pesquisas Tropicais (STRI), o nível do mar subirá cerca de 80 centímetros, com temperaturas atmosféricas projetadas para o final do século, 2,7 ºC acima dos níveis anteriores à era industrial.
"A maioria das ilhas de Guna Yala está a cerca de 50 centímetros acima do nível do mar. Elas simplesmente não vão aguentar. Ficarão submersas", explicou o especialista em monitoramento climático à AFP.
Davies, de 53 anos, lembra-se de ajudar o pai a carregar pedras, escombros e corais quando criança para encher a costa da ilha, a fim de aumentá-la e amenizar o impacto do mar.
"Tirar pessoas de uma ilha e colocá-las em outro lugar mostra a realidade que já enfrentamos no planeta", disse a diretora-geral da COP30, Ana Toni, à AFP.
Choveu cedo e é preciso desviar das poças d´água nas estradas de terra de Gardí Sugdub. Em Isber Yala, "terra das nêsperas" na língua guna, as ruas têm calçadas e são pavimentadas.
As casas, de 40 metros quadrados de concreto e zinco, todas pintadas de creme e amarelo, têm vasos sanitários com descarga em vez de banheiros comunitários e um terreno para plantio. Elas são alinhadas em blocos e ficam a 2 quilômetros da costa.

Fonte: g1

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