
25/11/2025
De um lado da baía, navios de cruzeiro se elevam acima das árvores, servindo como hotéis temporários para milhares de pessoas que participam das negociações climáticas das Nações Unidas nas proximidades. As luzes dos navios cintilam enquanto diplomatas debatem sobre como fornecer fontes de energia mais limpas a um mundo que a consome em grande quantidade.
Mas, logo do outro lado da baía, está um mundo completamente diferente, onde a eletricidade chegou para alguns somente neste ano. Muitos outros ainda estão à espera dela.
Essa é a realidade de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo que ainda não têm acesso à energia, uma das inovações mais essenciais da modernidade.
"São maravilhosos, não são?", disse Joelma Morães Anjo, moradora da ilha de Paquetá desde que nasceu, admirando os navios reluzentes de sua casa, onde a eletricidade confiável foi instalada há cerca de nove meses.
"É quase como se fôssemos parte da COP", disse ela, usando a abreviatura das negociações da ONU que estão sendo realizadas a poucos quilômetros de distância, em Belém, uma cidade vasta na beira da floresta amazônica.
A grande maioria das pessoas sem eletricidade vive na África, mas os números no Hemisfério Ocidental também não são pequenos. Cerca de 17 milhões vivem totalmente sem, e 60 milhões a mais dependem de diesel, uma das formas de combustível mais sujas e caras, para operar pequenos geradores. Na Amazônia brasileira, 1 milhão de pessoas não têm acesso, e outros 2 milhões usam diesel.
Em toda a América do Sul e Caribe, quase todas essas pessoas são indígenas, afrodescendentes ou, como nas ilhas de Paquetá e Jutuba, parte de comunidades etnicamente mistas que vivem ao longo das margens do Amazonas e seus inúmeros afluentes.
Em termos de emissões de gases de efeito estufa que aceleram as alterações climáticas, a sua contribuição é infinitesimal. A geladeira americana média, funcionando a cada segundo do ano, contribuiria mais em termos de emissões do que a maioria delas. Mas a questão de como os pobres do mundo obtêm acesso à energia é tão urgente quanto sempre foi.
À medida que as populações crescem, a dependência do carvão vegetal como combustível para cozinhar se tornou uma grande responsável pelo desmatamento, por exemplo. E muitos governos no mundo em desenvolvimento têm argumentado que, apesar das preocupações climáticas, não devem ser julgados por buscar o desenvolvimento de combustíveis fósseis se isso significar expandir o acesso à eletricidade mais rapidamente.
O acesso básico à eletricidade é, para muitos, o primeiro passo para a participação em uma economia mais ampla.
Em casa, isso pode significar comprar uma geladeira, uma TV e um celular com câmera e aplicativos de mensagens que você pode manter carregados de forma confiável. Em uma comunidade, pode significar um sistema de som na igreja ou Wi-Fi público. O acesso a máquinas movidas a eletricidade, como uma prensa de óleo, pode tornar a produção mais eficiente, permitindo que as pessoas ganhem mais.
Seja qual for o caso, a questão de ter ou não eletricidade se irradia por quase todos os momentos da vida.
Isso ficou evidente no último fim de semana em um campo de areia, do outro lado da água em relação aos navios de cruzeiro da COP, onde moradores das ilhas de Jutuba e Paquetá se reuniram para um torneio de futebol de cinco contra cinco. O campeão ganharia um touro, embora não fosse um touro premiado —estava sarnento, com chifres tortos.
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