
03/02/2026
Dezenas de milhares de pessoas em Moçambique estão sendo resgatadas enquanto as águas continuam a devastar o país africano. É a pior enchente em uma geração.
Equipes do Brasil, da África do Sul e do Reino Unido têm ajudado nas operações de resgate.
"Para mim, esta é a primeira vez que passo por uma calamidade desta magnitude. Os mais velhos dizem que um desastre semelhante ocorreu na década de 1990", afirma Tomaz Antonio Mlau, mecânico de 24 anos.
Mlau e sua família, que moram perto de Marracuene, uma cidade a 30 km ao norte da capital, Maputo, acordaram e encontraram sua casa inundada depois que o rio Inkomati transbordou.
"Quando um barco de resgate chegou algumas horas depois, não hesitamos em embarcar e nos refugiar na cidade de Marracuene", disse ele, acrescentando que tiveram que abandonar todos os seus pertences e só conseguiram levar uma muda de roupa.
Mlau, sua esposa e seus dois filhos encontraram refúgio em um dos seis centros —escolas e igrejas— que até agora estão abrigando cerca de 4.000 pessoas.
Muitos dos que estão na escola Gwazamutini são agricultores de áreas de baixa altitude, de criação de gado e arrozais.
"Perdemos tudo nas enchentes, incluindo casas, televisores, geladeiras, roupas e gado - bovinos, cabras e porcos. Nossas fazendas estão submersas. Sou agricultor. Cultivo arroz de qualidade", diz Francisco Fernando Chivindzi, de 67 anos.
A casa dele fica em Hobjana, um dos vários bairros inundados entre a margem esquerda do rio Incomati e a estância turística costeira de Macaneta. A cidade de Marracuene fica na margem direita do rio.
"As águas da enchente atingiram níveis que não esperávamos. Nunca tivemos uma enchente dessa magnitude em toda a minha vida", disse Chivindzi.
"Estamos felizes por estar aqui em terra firme. Mas estamos muito preocupados por ter deixado todos os nossos pertences para trás."
O agricultor expressou sua gratidão aos proprietários dos barcos que vieram ajudá-lo e aos seus vizinhos gratuitamente —e fez um apelo para que outros se salvem.
"Ouvimos dizer que ainda há algumas pessoas resistindo, agarradas às copas das árvores e aos telhados. Gostaria que elas atendessem aos socorristas e se juntassem a nós neste abrigo temporário. Devemos valorizar a vida mais do que os bens materiais", disse ele.
Shafee Sidat, prefeito de Marracuene, durante a sua visita à Escola Secundária de Gwazamutini no sábado, relatou a mesma situação.
"Ainda temos pessoas para resgatar e algumas se recusam a abandonar as áreas de risco. Isso é um desafio. Estimamos que mais de 10 mil pessoas sejam afetadas em Marracuene", disse ele.
Pelo menos 642.122 pessoas foram afetadas no país desde 7 de janeiro pelas inundações, especialmente nas regiões sul e centro, com 12 mortes registradas até o momento, de acordo com dados provisórios do Instituto Nacional de Gestão e Redução de Riscos de Desastres.
No total, 125 pessoas morreram em Moçambique desde o início da estação chuvosa, em outubro.
O prefeito Sidat teme que a situação piore devido às fortes chuvas na vizinha África do Sul, onde nasce o rio Inkomati.
"Estamos preocupados com as descargas de uma barragem sul-africana no rio Inkomati. Nossa cidade é a última rio abaixo", disse o prefeito.
"Antes de desaguarem no Oceano Índico, as águas inundam as machambas [terras agrícolas], casas e áreas de pastagem aqui nas zonas baixas."
Algumas imagens aéreas mostram água até onde a vista alcança. Centenas de famílias continuam isoladas.
Todos os veículos foram proibidos de circular nas estradas entre as províncias de Maputo e Gaza, a norte.
O ministro dos Transportes, João Matlombe, explicou que isso se deveu ao fato de que as principais estradas, em particular a N1, que atravessa todo o país e é a única ligação ao norte, ficaram inundadas.
A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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