
07/04/2026
Um projeto de um estudante de Porto do Mangue, cidade do Rio Grande do Norte, para melhorar a sustentabilidade da pesca da lagosta tem chamado a atenção dentro e fora do Brasil. A ferramenta foi desenvolvida por Gabriel Melo, 18, durante uma feira de ciências, com o objetivo de transformar a principal atividade econômica da região em um modelo menos predatório.
As armadilhas criadas por Melo são feitas a partir da madeira da algaroba, árvore exótica e invasora, que é biodegradável e se torna substrato no fundo do mar após a captura, diferentemente de materiais ilegais e poluentes usados muitas vezes na atividade, como tonéis, pneus e marambaias.
Segundo o estudante, as ferramentas convencionais impactam o ecossistema marinho, capturam lagostas juvenis e são caras. O projeto, chamado Pesqueiro Sustentável, tenta reverter esses problemas. "Uma estrutura pesqueira tradicional custa de R$ 75 a R$ 138. O valor do Pesqueiro Sustentável varia de R$ 40 a R$ 45", diz.
Cerca de 270 famílias dependem da pesca do crustáceo no município de Porto do Mangue. O estado do Rio Grande do Norte é o segundo maior produtor de lagosta no Brasil, depois do Ceará.
O projeto está em fase de escalabilidade, após ser apresentado a órgãos como o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema-RN) e a Secretaria Municipal de Agricultura e Pesca de Porto do Mangue.
A equipe composta, além de Melo, pelo orientador do projeto, Dalison Vitor, 29, e pela estudante Gabriele Melo, 16, participou de 27 a 29 de março da Brazil Conference, na Universidade Harvard e no Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, para apresentar a iniciativa. A viagem ocorreu após vitória da equipe na categoria Diálogos, da Brazil Conference.
"Se o Pesqueiro Sustentável não tivesse nascido, a pesca da lagosta estaria em risco", afirma Melo. O biólogo Vicente Júnior adiciona que o projeto "alia conservação ambiental com a manutenção da atividade econômica local".
"O pesqueiro mostra que é possível conciliar o uso dos recursos naturais com práticas responsáveis, sem comprometer os ecossistemas das dunas e do mar", diz Júnior. Entre os benefícios está a preservação dos estoques pesqueiros, o que assegura a continuidade da atividade para as próximas gerações, segundo o biólogo.
Para Ilton Araújo Soares, supervisor de unidades de conservação do Idema-RN, o Pesqueiro Sustentável pode gerar uma fonte de renda na cadeia produtiva para fabricação da ferramenta.
A pesca na região é desenvolvida de forma extrativa e de modo irregular. "Quando a fiscalização estava bem rígida, o pescador pescava pela madrugada, meu avô me contou. Eu via meus tios pescando às 3h, porque às 7h tinha fiscalização", conta Melo.
Uma das irregularidades mais frequentes, diz, é a captura de indivíduos de tamanho juvenil, abaixo dos parâmetros oficiais, o que estimula a sobrepesca e ameaça a atividade.
A ideia para o Pesqueiro Sustentável surgiu em 2023, na preparação para a feira de ciências da Escola Estadual Professora Josélia de Souza Silva. Para prepará-la, Gabriel observou e ouviu as necessidades dos pescadores da comunidade, sob orientação do professor Dalison Vitor.
A primeira produção do Pesqueiro Sustentável, com 27 dias, foi 1,46 kg. Com 1 mês e 22 dias, os animais capturados pesaram 3,17 kg.
Depois do evento na escola, Melo buscou especialistas para estudar a viabilidade do projeto e como transformá-lo em negócio. Para 2026 a expectativa é chegar à fase de produção em larga escala e venda.
O secretário municipal de Agricultura e Pesca de Porto do Mangue, Francisco Hélio dos Santos, afirma que ainda falta a liberação do Ibama sobre o uso da algaroba.
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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