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Ar poluído aumenta risco de câncer e ameaça avanço no combate à doença, aponta relatório global

28/04/2026

A exposição prolongada à poluição do ar está associada a um aumento significativo no risco de desenvolver e morrer de câncer, segundo novo relatório da UICC (Union for International Cancer Control), a mais antiga e maior organização global dedicada ao combate à doença.
O documento, divulgado nesta semana, amplia o entendimento sobre os impactos da poluição além da já conhecida relação com o câncer de pulmão e aponta para desigualdades marcantes na distribuição desses riscos.
De acordo com o levantamento, a exposição contínua a partículas finas (PM2,5) eleva em 11% o risco geral de desenvolver câncer e em 12% o risco de morte pela doença.
Entre os tipos mais afetados estão câncer de fígado e colorretal, com aumentos de incidência de 32% e 18%, respectivamente. A mortalidade também cresce de forma desigual: o risco de morte por câncer de mama sobe 20%, por câncer de fígado, 14%, e por câncer de pulmão, 13%.
Os dados reforçam que a poluição atmosférica atua como um fator de risco "multicâncer", conceito ainda pouco explorado em pesquisas anteriores. O estudo, conduzido pelo The George Institute for Global Health, reúne evidências de 42 meta-análises publicadas entre 2019 e 2024.
"Fizemos grandes avanços na redução das mortes por câncer, mas o ar poluído está minando silenciosamente esse progresso", afirma Cary Adams, CEO da UICC. A entidade foi fundada em 1933, é sediada em Genebra (Suíça) e reúne mais de 1.100 organizações-membro em mais de 170 países. "É um risco que afeta desproporcionalmente mulheres, crianças e pessoas em situação de pobreza", reforça.
O relatório também chama atenção para o papel das partículas maiores (PM10), associadas a um aumento de 10% no risco geral de câncer e a elevações específicas na mortalidade por câncer de pulmão (13%) e de mama (11%).
Há ainda indicações que relacionam a absorção prolongada de PM2,5 a um risco 63% maior de câncer cerebral. O dado, ainda preliminar, preocupa especialistas pela capacidade dessas partículas de penetrar na corrente sanguínea e atingir o cérebro.
As disparidades sociais aparecem como um dos pontos centrais do estudo. Mulheres expostas à poluição doméstica, especialmente em contextos de uso de combustíveis sólidos para cozinhar e aquecer, têm risco até 69% maior de desenvolver câncer de pulmão.
Trabalhadores ao ar livre e populações que vivem próximas a áreas industriais —frequentemente comunidades de baixa renda— também enfrentam níveis mais altos de exposição.
Países de baixa e média renda concentram a maior parte desse impacto. Além de lidarem com maior poluição, dispõem de menos recursos para prevenção e tratamento, o que agrava tanto os desfechos de saúde quanto as desigualdades econômicas.
A projeção global de casos de câncer —de 20 milhões em 2022 para 35 milhões até 2050— tende a pressionar ainda mais esses sistemas de saúde, segundo o documento.
Apesar do cenário preocupante, o relatório sustenta que há soluções viáveis e já testadas. Medidas como a transição para a energia limpa, o fortalecimento de padrões de emissão para transporte e indústria e o redesenho urbano com foco em mobilidade ativa podem reduzir a exposição da população.
Exemplos concretos incluem iniciativas como os "superblocos" de Barcelona (Espanha), cujo conceito central é criar células urbanas onde a prioridade máxima é do pedestre e do ciclista, transformando ruas que antes eram dominadas por carros em áreas de lazer, convivência e espaços verdes.
O programa de ruas abertas em Bogotá (Colômbia), que também priorizam pedestres e ciclistas e reduzem o tráfego de veículos, é outro exemplo citado no relatório. Essas políticas têm sido associadas à diminuição de mortes evitáveis e à melhoria da qualidade do ar.
A implementação, porém, ainda é limitada. Embora mais de 140 países possuam padrões de qualidade do ar, apenas cerca de um terço deles os aplica de forma efetiva. Para os autores, a lacuna entre regulamentação e execução mantém populações inteiras expostas a riscos evitáveis.
Entre as recomendações do relatório estão a adoção de padrões alinhados às diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde), a ampliação do monitoramento da qualidade do ar —especialmente em regiões mais vulneráveis— e a integração de metas ambientais aos planos nacionais de controle do câncer.

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