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O efeito rebote dos aterros

26/05/2026

Às seis da manhã, o primeiro caminhão encosta na balança de um transbordo ou aterro sanitário brasileiro. O peso é registrado, a cancela se abre e a rotina começa. Em poucas horas, centenas de veículos repetirão o mesmo ritual. O sistema é organizado, controlado, tecnicamente robusto. Há geomembranas protegendo o solo, drenagem de chorume e captação de biogás convertido em energia. Nada lembra os lixões do passado.
No entanto, mesmo com tantos avanços, eles ainda existem. O Brasil gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. A maior parte da massa coletada é destinada a aterros sanitários. Ao mesmo tempo, o país ainda convive com cerca de três mil lixões ou áreas de destinação inadequada, sobretudo em municípios de pequeno porte. Convivem, no mesmo território nacional, infraestrutura sofisticada e descarte precário.
A Lei 12.305/2010 é clara: a disposição final é a última etapa da hierarquia. Antes dela vêm redução, reutilização e reciclagem. O aterro deveria ser o destino dos rejeitos e não o centro do sistema. Mas a verdade é inconveniente e distorcida.
Em 1865, o economista britânico William Stanley Jevons observou que ganhos de eficiência no uso do carvão não reduziram o consumo total do recurso. Pelo contrário. A eficiência reduziu custos, ampliou o uso e elevou o consumo agregado. Surgia o chamado efeito rebote.
A analogia com a política de resíduos é desconfortável, mas plausível. À medida que o aterro se torna mais eficiente, aprimora-se a captura de biogás, fortalece o controle ambiental e amplia a previsibilidade operacional. Cresce, portanto, também a racionalidade econômica de manter fluxo constante de resíduos para sustentar sua viabilidade. A eficiência, nesse contexto, reorganiza incentivos e tende a consolidar a dependência.
Os economistas W. Brian Arthur e Paul David explicam que grandes investimentos criam dependência de trajetória. Infraestruturas intensivas em capital exigem escala para se pagarem. Contratos de longo prazo reduzem flexibilidade. Modelos de remuneração por tonelagem premiam volume.
Logo, não se trata de má gestão. Trata-se de estrutura institucional. Se o equilíbrio financeiro depende da massa aterrada, reduzir essa massa tensiona o próprio arranjo econômico. O sistema passa a depender do fluxo que deveria, em tese, diminuir.
Mas há um paradoxo ainda mais profundo. Aterros sanitários são soluções concentradas e intensivas em capital. Funcionam com eficiência onde há grande volume. Nos pequenos municípios, tornam-se economicamente inviáveis ou dependentes de arranjos consorciados complexos. É justamente nesses territórios que persistem os lixões.
Ou seja: o modelo que absorve a maior parte dos recursos públicos e privados da política de resíduos não consegue universalizar sua própria solução. Ao concentrar investimentos na disposição final, limita-se a expansão de rotas mais descentralizadas, como triagem estruturada, compostagem regional e valorização material com capilaridade logística, que poderiam operar com maior adaptabilidade territorial.
O efeito rebote, portanto, não é apenas ambiental; é econômico e distributivo. Capturar metano é melhor do que liberá-lo. Mas mitigar impactos não é o mesmo que evitar perdas. A economia circular baseia-se na preservação do valor material. Quando recicláveis são aterrados, perdem-se recursos, energia incorporada e potencial produtivo.
O problema não é o aterro sanitário. Ele é indispensável para rejeitos e representa avanço frente à precariedade histórica. O problema surge quando a estabilidade econômica passa a depender da sua alimentação contínua e, ao mesmo tempo, não consegue eliminar as estruturas inadequadas que persistem.
Voltemos à cena inicial. O caminhão descarrega. A máquina compacta. O gás é capturado. O sistema funciona. Mas funciona para quê e para quem?
Estamos construindo um modelo que precisa do lixo para sobreviver ou um modelo que aprende a viver sem ele?
Se a eficiência reorganiza os incentivos, talvez o desafio não seja apenas técnico, mas institucional.

Fonte: CicloVivo

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