
11/06/2026
Durante décadas, cientistas procuraram a sede da magnetorrecepção, a capacidade de detectar o campo magnético da Terra, nos locais mais óbvios do corpo das aves, como os olhos, o ouvido interno e o bico. Um estudo recém-publicado na revista Science, porém, aponta para um órgão inesperado: o fígado. Segundo os pesquisadores, a navegação magnética dos pombos-correio parece depender de células especializadas presentes nesse órgão, oferecendo uma possível resposta para uma questão que intriga a ciência há mais de um século.
As células envolvidas são macrófagos, cuja função habitual é decompor glóbulos vermelhos envelhecidos e acumular ferro durante esse processo. Pesquisadores da Universidade de Bonn encontraram grandes concentrações desses macrófagos carregados de ferro no tecido hepático dos pombos, posicionados junto a fibras nervosas. “Isso torna muito provável que [as células nervosas e os macrófagos] estejam se comunicando”, afirma Clivia Lisowski, imunologista que liderou o estudo. A hipótese surgiu durante uma conversa informal em uma conferência, quando seu colega profissional, Christian Kurts, encontrou o especialista em comportamento animal Martin Wikelski. “Tivemos um momento de revelação”, diz Kurts. “Talvez devêssemos testar se essas células estão envolvidas.”
Para investigar a ideia, a equipe treinou 34 pombos em uma rota de 19 quilômetros pelos Alpes alemães e, posteriormente, desativou experimentalmente os macrófagos do fígado em parte das aves. Os resultados mostraram que, em dias nublados, os pombos submetidos ao procedimento não conseguiam retornar para casa. Já em dias de céu aberto, eles mantinham a capacidade de orientação, utilizando a posição do Sol como referência. Os pesquisadores concluíram que o fígado parece responder pela navegação magnética, enquanto os sinais visuais do céu complementam o processo.
A descoberta sugere que os pombos utilizam duas “bússolas” distintas para se orientar. “O magnetismo tem sido um mistério por um século, e ninguém conseguia descobrir onde ele se localiza e como funciona”, afirma Wikelski, diretor do Instituto Max Planck de Comportamento Animal. “Agora, acreditamos ter encontrado, de fato, uma solução viável.” Apesar do entusiasmo, nem todos os especialistas consideram a questão encerrada. O biofísico Thorsten Ritz, da UC Irvine, continua defendendo a hipótese de que aves detectam o campo magnético terrestre por meio de moléculas fotossensíveis nos olhos. “Quase sempre existem múltiplas explicações para como um animal pode obter uma vantagem evolutiva”, afirma. “Sou a favor de manter a mente aberta em vez de tentar encontrar vencedores e perdedores.”
Os pesquisadores Simon Spiro e Hal Drakesmith, que comentaram o estudo na Science, sugerem que as duas teorias podem estar corretas em contextos diferentes. “Talvez um processo domine a navegação de longa distância, enquanto outro seja usado para a localização de destinos mais específicos”, escrevem. Ainda não se sabe se espécies como tartarugas marinhas, baleias-cinzentas e lagostas espinhosas utilizam o mesmo sistema baseado em ferro e macrófagos. Os cientistas também precisam identificar quais vias nervosas transportam o sinal do fígado até o cérebro e quais regiões cerebrais processam essa informação. “Cada pequeno detalhe que conseguirmos desvendar no futuro, sem dúvida, corroborará a validade das descobertas”, afirma Kurts. Se a evolução realmente encontrou a mesma solução em diferentes espécies, contudo, ainda é uma questão em aberto.
Acesse o estudo no CicloVivo
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