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Eucalipto se tornou vilão de incêndios florestais

09/07/2026

Todos os anos, mais de 400 mil peregrinos percorrem o Caminho de Santiago, na região espanhola da Galícia, atravessando colinas enevoadas e densas áreas de floresta. Mas grande parte da mata que cerca a rota de peregrinação espanhola já não é nativa.
Em vez de carvalhos e castanheiros típicos da região, amplas áreas do noroeste da Espanha passaram a ser dominadas por eucaliptos.
Essa transformação não é exclusiva da Galícia. Valorizadas pelas indústrias de celulose e madeira por seu rápido crescimento e alta rentabilidade, vastas monoculturas da árvore originária da Austrália foram implantadas em lugares como Brasil, Chile, Califórnia, Índia e África do Sul.
Globalmente, as plantações de eucalipto já cobrem 22 milhões de hectares em mais de 90 países e, em muitas regiões, tornaram-se um dos pilares das economias rurais. Mas, sob copas aparentemente tranquilas, escondem-se paisagens vulneráveis a incêndios florestais extremos, já que a espécie é altamente inflamável e chegou a ser apelidada por ativistas de "árvore de gasolina".
Nos últimos anos, incêndios devastadores potencializados por monoculturas de eucalipto foram registrados em lugares distantes, como o Chile em 2017 e 2023, Portugal em 2017 e 2024 e os estados americanos do Havaí em 2023 e Califórnia em 1991.
A Europa enfrenta um verão de temperaturas sufocantes, com ondas de calor excepcionalmente precoces ampliando os riscos de incêndios.
Partes do sul do continente europeu foram atingidas nos últimos dias. O ano passado foi o pior já registrado em termos de incêndios florestais, com mais de 1 milhão de hectares queimados —grande parte deles na Península Ibérica.
Pesquisadores afirmam que, embora os eucaliptos não sejam responsáveis por iniciar esses incêndios, eles podem intensificá-los consideravelmente.
"As florestas de eucalipto estão claramente entre as mais inflamáveis que existem no mundo", disse à DW Tim Curran, da Universidade Lincoln, na Nova Zelândia.
"Se você introduz um eucalipto em um novo ambiente, é muito provável que altere o que chamamos de regime de incêndios. Isso inclui aspectos como intensidade, frequência, temperatura alcançada pelo fogo e a frequência com que os incêndios ocorrem."
As folhas dessas árvores contêm óleos altamente inflamáveis, e pedaços de sua casca podem se transformar em brasas em chama. Em condições extremas, essas brasas podem percorrer grandes distâncias e provocar novos focos de incêndio, como ocorreu nos devastadores incêndios do chamado "sábado negro" na Austrália, em 2009.
"Havia evidências de que brasas foram carregadas pelo vento por mais de 30 quilômetros além da linha principal do incêndio, iniciando novos focos", afirmou Curran, acrescentando que não se tratou de um caso isolado.
Na Galícia, os plantios podem facilmente ultrapassar seus limites originais porque, enquanto carvalhos e castanheiros nativos podem levar mais de 80 anos para atingir a maturidade, o eucalipto precisa de apenas 15. Como resultado, a espécie se recupera rapidamente quando incêndios devastam uma paisagem, obtendo uma vantagem competitiva sobre as árvores nativas.
Isso cria um ciclo de autorreforço que acaba permitindo a expansão das monoculturas, aumentando o risco de incêndios florestais.

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