
18/08/2026
"Não vamos recuperar, pelo menos em nenhum futuro previsível, o clima e a atmosfera que já perdemos", diz o climatologista equatoriano Raúl Cordero.
"Mas isso não significa que devemos nos acomodar. Porque ainda podemos perder mais", ele acrescenta, em entrevista à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.
Cordero, que trabalhou durante anos no Chile e realiza várias pesquisas na Antártida, é atualmente professor da Universidade de Groningen, na Holanda.
De incêndios a ondas de calor e inundações, "há uma epidemia de eventos extremos ao redor do mundo que estão se tornando cada vez mais intensos e frequentes", em suas palavras.
Os 11 anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes já registrados, segundo um relatório de março da Organização Meteorológica Mundial.
Cordero explicou por que o hemisfério norte está se aquecendo quase duas vezes mais rápido que o hemisfério sul, o que esperar do efeito combinado das mudanças climáticas e do El Niño e como, apesar de tudo, ele ainda encontra motivos para ter esperança.
Leia abaixo trechos da entrevista.
🎤 BBC - Ao apresentar seu relatório deste ano sobre o estado do clima no Reino Unido, o serviço meteorológico britânico afirmou que "o clima do século 20 já não existe". O senhor concorda com isso?
Raúl Cordero - Sim, concordo plenamente. O clima depende, em última instância, da atmosfera, e a atmosfera na qual nascemos já não existe. O planeta em que nascemos já não existe.
Nós alteramos a composição atmosférica do planeta com as emissões de gases de efeito estufa. E não a alteramos apenas um pouco: a concentração de CO2, o principal gás de efeito estufa, é hoje 50% maior do que era há pouco mais de um século.
Se alguém modifica em tamanha proporção a composição atmosférica do planeta, o clima vai mudar. E ele nunca voltará a ser o que era até que esse excedente de 50% de CO2 diminua.
Portanto, não é apenas o clima que temos hoje de diferente. A atmosfera é diferente. E há algo ainda pior: não vamos recuperá-los, pelo menos em nenhum futuro previsível.
🎤 Quando o senhor diz "nenhum futuro previsível", a que se refere?
O futuro previsível costuma estar associado aos horizontes da vida humana. É muito difícil que consigamos reduzir a concentração de gases de efeito estufa em menos de cem anos.
Isso não significa que devemos nos acomodar, que tudo já está perdido. Não, porque ainda podemos perder mais. Se não interrompermos as emissões de gases de efeito estufa, continuaremos alterando o clima e agravando a situação.
O problema das mudanças climáticas é que elas provocam um aumento na frequência de eventos extremos. Há uma epidemia de eventos extremos em todo o mundo, cada vez mais intensos e frequentes. Se continuarmos como estamos, a frequência desses eventos extremos continuará aumentando.
Termine de ler esta entrevista clicando na Folha de S. Paulo
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