
01/09/2026
No maior santuário de reprodução de baleias-jubarte do Atlântico Sul, no litoral brasileiro, vários machos batem na água com suas caudas e se empurram uns aos outros na ânsia de alcançar uma fêmea - uma cena impensável há poucas décadas.
A poucos metros dali, a bordo de um catamarã, um grupo de cientistas observa com entusiasmo a quantidade de baleias e seus comportamentos, e se apressa em fotografar cada jato d´água, nadadeira ou dorso que aparece.
"Quem vê uma baleia se apaixona, se conecta de outra maneira com o meio ambiente", diz um deles, Eduardo Camargo, com a câmera em mãos.
Camargo dirige o Instituto da Baleia Jubarte (IBJ), fundado em 1996 e sediado em Caravelas, no extremo sul da Bahia, uma das principais organizações que pesquisam e protegem essa espécie no Brasil.
Entre junho e novembro, ele e sua equipe navegam até o arquipélago de Abrolhos, a cerca de 70 km da costa, em cujas águas quentes as baleias-jubarte fêmeas dão à luz e amamentam seus filhotes, enquanto os machos procuram acasalar.
Durante a temporada, são registrados centenas desses cetáceos. Eles passaram de quase extintos no Atlântico Sul há quatro décadas para uma população de cerca de 35.000 indivíduos hoje, quase metade da população mundial de aproximadamente 80.000.
Essa recuperação exigiu a proibição da caça, a proteção de seus locais de reprodução e uma extensa pesquisa para entender esses gigantes e implementar outras estratégias de preservação, de acordo com o IBJ.
Vestindo um colete salva-vidas e capacete, e carregando uma balestra, o biólogo Fabio Fontes persegue o grupo de baleias em um bote inflável.
A poucos metros de distância, ele dispara uma flecha que perfura as costas de um dos animais e se joga na água, de onde recupera a baleia, juntamente com uma amostra de pele e gordura.
A manobra é observada atentamente do catamarã por cientistas e jornalistas, entre eles a AFP.
Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do IBJ, explica à AFP que essa biópsia permite aos pesquisadores estabelecer relações de parentesco. Foi assim que descobriram, anos atrás, que uma baleia-jubarte nascida em Abrolhos era parente de outra avistada na ilha Geórgia do Sul, cerca de 4.000 quilômetros ao sul.
Essa descoberta ajudou a estabelecer a rota migratória desses animais, que podem atingir até 16 metros de comprimento na fase adulta e pesar o equivalente a seis elefantes.
Eles passam o verão se alimentando no extremo sul do Atlântico e migram para o litoral brasileiro para se reproduzir.
A cauda, com sua mancha branca sobre um fundo preto, é a impressão digital da baleia-jubarte, um padrão único que permite a identificação de cada indivíduo.
A comparação de fotos das caudas, que antes exigia muitos olhos e horas de trabalho, agora é feita em segundos pela plataforma Happy Whale, que utiliza inteligência artificial e já identificou 8.300 baleias-jubarte brasileiras.
Graças a essa ferramenta, um recorde mundial foi estabelecido: uma baleia-jubarte percorreu mais de 15.000 quilômetros até a costa leste da Austrália, um feito que foi noticiado pela imprensa internacional em maio.
"As populações de baleia aqui no hemisfério sul são muito mais conectadas do que a gente imaginava", disse Marcondes à AFP.
A matéria na íntegra pode ser lida no g1
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