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Mymba Kuéra: como foi o monumental resgate de mais de 30 mil animais durante a construção de Itaipu, entre o Brasil e o Paraguai

22/09/2026

"Era um grande desafio. O Paraguai nunca havia feito nada parecido, nós fomos os pioneiros." Darío Pérez Chena tinha 43 anos de idade quando liderou um dos maiores resgates de animais silvestres da história da América Latina.
O engenheiro agrônomo paraguaio dirigiu a equipe que, em 1982, salvou milhares de animais em uma corrida contra o tempo: desde macacos até tatus, cobras e tarântulas.
Pérez Chena trabalhava para a Itaipu Binacional, o organismo criado por um acordo entre o Brasil e o Paraguai, que foi encarregado da construção de uma obra colossal de engenharia no rio Paraná. Com mais de 7 km de comprimento, a usina de Itaipu passou a ser, na época, a maior hidrelétrica do mundo.
O engenheiro havia se formado no Paraguai e retornado à capital do país, Assunção, após sua pós-graduação na Alemanha. Ele era diretor do Serviço Florestal Nacional do Paraguai, até que decidiu assumir outro grande desafio.
Pérez Chena se mudou, com a esposa e os filhos, para a cidade de Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. Ele passou a ser o responsável pela fauna e flora terrestre em Itaipu.
Seu trabalho no resgate histórico da fauna local definiu as bases para a proteção da biodiversidade na região, que se mantêm até os dias de hoje.
Pérez Chena contou como se deu a titânica operação à jornalista Stefania Gozzer, do programa de rádio Witness History, do Serviço Mundial da BBC.
A construção da represa de Itaipu levou nove anos. Nela trabalharam cerca de 40 mil pessoas. Para realizar as obras em terreno seco, foi necessário escavar um canal para desviar o rio temporariamente.
Os trabalhos foram finalizados em 1982. Tudo estava pronto para abrir as comportas e começar a encher de água o gigantesco reservatório da represa, com cerca de 1.350 km².
Mas a região a ser inundada fazia parte de um enorme ecossistema: a Floresta Atlântica do Alto Paraná, uma das áreas de biodiversidade mais ricas do planeta. Este habitat abriga cerca de 20 mil espécies de plantas e pelo menos 2 mil espécies de animais, como onças-pardas e onças-pintadas, além de 400 espécies de aves.
A construção de Itaipu coincidiu com uma nova era na história da ecologia, iniciada pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada na capital sueca em 1972. A Conferência de Estocolmo transformou o meio ambiente em uma questão fundamental.
E o resgate da fauna de Itaipu despertou enorme interesse em todo o planeta. Seria possível salvar, ao menos parcialmente, aquele tesouro da biodiversidade?
O Brasil e o Paraguai assumiram a tarefa de resgatar a fauna silvestre da sua margem do rio. E, no lado paraguaio, o projeto de recuperação da fauna recebeu o nome de Mymba Kuéra - "os animais", em idioma guarani.
Os preparativos para o resgate levaram vários anos. Eles incluíram a realização de um inventário de toda a área atingida, com a participação de botânicos, zoólogos e engenheiros florestais, entre outros profissionais.
Cada avistamento era registrado e os animais eram identificados também pelos seus rastros, como pegadas ou materiais fecais. "O relevo permitiu a construção de um grande arquivo da fauna paraguaia", contou o engenheiro Pérez Chena à BBC.
"Contribuímos muito para o conhecimento daquela região. E também oferecemos a oportunidade de aprender a muitos alunos de biologia, veterinária e agronomia." O inventário foi a base da operação de resgate, que seria realizada por uma equipe de 189 pessoas, liderada por Pérez Chena.
"A equipe foi muito bem selecionada", recorda ele. "Tentamos levar pessoas jovens, com não mais de 40, 45 anos, que soubessem nadar, que tivessem boa visão e boa audição."

A conclusão desta leitura pode ser lida na Folha de S. Paulo

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