
24/09/2026
Sob o céu azul de agosto, um catamarã avança pelo mar do extremo sul da Bahia em direção à costa. É o fim de uma expedição de dois dias ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos.
Debruçados sobre planilhas de papel e um computador, pesquisadores fazem cálculos. "Ao todo, 59 baleias se aproximaram do barco, duas delas filhotes, fora todas as outras que vimos à distância", conclui Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, que há três décadas estuda a espécie.
O número impressiona, em especial quando se considera que a população das baleias-jubartes da costa brasileira foi reduzida a algumas centenas pela caça, proibida mundialmente em 1986. Hoje, o total chega a quase 35 mil, segundo o último censo do instituto, de 2022.
O trabalho de observação dos animais inclui a documentação minuciosa de informações como localização, profundidade, comportamento, quantidade de indivíduos em cada grupo e, quando possível, registro fotográfico da cauda, que tem um padrão único e serve como uma impressão digital.
O processo envolve várias pessoas, muitas horas de navegação, olhos atentos e gritos: "Baleia à bombordo", "É um grupo de seis", "Cauda, cauda!" e "Consegui a foto, essa é padrão P1".
O projeto já cadastrou mais de 14,7 mil fotografias de baleias na plataforma global Happy Whale. Dessas, 9.254 foram identificadas e correspondem a 8.359 indivíduos
O trabalho levou à descoberta de uma jubarte baiana que viajou por mais de 14 mil quilômetros, chegando até a Austrália. O registro em águas brasileiras foi feito por pesquisadores do IBJ, como o instituto é conhecido, e a foto da cauda "deu match" com uma imagem feita do outro lado do planeta.
O conhecimento acumulado pelos pesquisadores também embasa políticas públicas, como normas para o turismo de observação de baleias e lista de espécies ameaçadas de extinção —da qual a jubarte deixou de fazer parte em 2014.
Os dados vêm sendo usados, ainda, para reduzir o risco de atropelamento de baleias por navios. "Já fizemos isso para o terminal Almirante Barroso, em São Sebastião (SP), e o porto de Vitória (ES)", conta Marcondes. "Os navios são orientados a adotar uma rota que passa por área com menor concentração de baleias e numa velocidade máxima de 10 nós."
Outro exemplo de aplicação dessas informações são as diretrizes para pesquisa sísmica. A técnica usada na indústria de óleo e gás é como um ultrassom gigante, que causa um grande ruído submarino para buscar novas reservas de combustíveis fósseis.
"Conseguimos incluir Bahia, Espírito Santo e Sergipe como área de restrição à sísmica por conta da jubarte, numa área que vai da linha da costa até a profundidade de 500 metros, no período de 1º de julho a 30 de novembro", diz o veterinário, em referência à temporada de baleias no litoral brasileiro.
"Há 15 anos nossa preocupação era tirar a jubarte da lista de espécies em extinção. Hoje o desafio é saber como as nossas atividades no mar vão conviver com uma população saudável de 35 mil baleias", explica Eduardo Camargo, diretor-presidente do IBJ.
A longevidade do projeto permite algo valioso na ciência: a produção de dados ao longo de muito tempo. Isso, somado a avanços tecnológicos e à recuperação da espécie, abre novos caminhos de pesquisa.
Nádia Freitas, 33, mestranda em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina, e Laura Aguilar, 26, mestre em Zoologia da Universidade Estadual de Santa Cruz, fazem parte da mais recente geração de cientistas do IBJ.
Enquanto Freitas estuda a ocupação pelas baleias-jubarte da região costeira de Abrolhos, Aguillar analisa o peso e o tamanho delas a partir de imagens de drone.
"Nos anos em que eu vi que a condição corporal delas estava melhor, a Nádia também viu que tinha mais baleia, por exemplo", afirma Laura. "Será que a condição corporal indica que elas estavam se alimentando muito bem na temporada anterior? Dá para relacionar isso com fatores ambientais? A gente chega com uma pergunta e vai descobrindo outras, querendo investigar mais coisas."
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