
03/04/2014
A chegada em massa de africanos à Europa racha o discurso do Velho Mundo: um estrato da sociedade defende políticas assistencialistas. Outro ergue a bandeira da direita radical e hostil aos “invasores”. No Ártico, o derretimento das geleiras acirra a tensão entre as potências mundiais, que cobiçam novas rotas de navegação e extração do petróleo. Milhões de pessoas deixam o Leste da Ásia, constantemente inundado, e, no Brasil, nordestinos trocam suas casas pelo Sudeste. Estes conflitos, entre tantos outros que já aparecem timidamente no cenário internacional, provocarão mais embaraços nas próximas décadas. A explicação para tantos episódios caóticos são as mudanças climáticas.
Divulgado neste domingo, o novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) dedica um capítulo inteiro à relação entre clima e segurança. Esta é a primeira vez que o órgão deu ênfase à ligação entre clima e crescimento da extrema-direita.
Segundo o IPCC, a temperatura global pode aumentar, no máximo, 2 graus Celsius para que o clima do planeta seja “administrável”. Mais do que isso, o homem perderia o controle sobre os fenômenos naturais. Hoje, no entanto, acredita-se que os termômetros devem chegar a mais de 4 graus Celsius até o fim do século. Com isso, aumenta a ocorrência de eventos climáticos extremos, que arrasam os recursos fundamentais para a economia de cada país — terras cultiváveis e água, principalmente.
— A escassez acirra questões que já são sensíveis — alerta Suzana Kahn, vice-presidente do IPCC e professora da Coppe/UFRJ. — O ambiente alterado aumentará o fosso entre as nações. Populações inteiras, que têm muito pouco a perder, vão se transformar em refugiados climáticos. Em um mundo já lotado, elas sempre serão recebidas com hostilidade. Criamos um barril de pólvora.
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