
05/05/2016
Um álbum de fotos reveladas em 6 de maio de 2004 guarda registros de um Bento Rodrigues bem diferente do que existe nesta quinta-feira (5), dia que o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, completa seis meses. Bento Rodrigues foi o distrito mais atingido pela lama naquele 5 de novembro de 2015. O ´tsunami´ de terra, rejeitos de minérios e água devastou quase a totalidade da comunidade.
Francisco de Paula Felipe, operador de motosserra, de 47 anos, e morador por mais de 30 anos de Bento Rodrigues, revê com nostalgia o álbum, uma das poucas lembranças que ele conseguiu manter após a tragédia. Entre as fotografias, estão registros do campo de futebol, um dos primeiros lugares a ser varrido pela lama. “Essas fotos são lembrança, um pedacinho da minha infância. Hoje, isso aqui é uma saudade que ficou e isso pode ficar de lembrança para futuras gerações minhas. Isso vai ser uma saudade que nada vai apagar. Enquanto eu viver, eu vou viver essa saudade e essa lembrança”, disse.
O rompimento da barragem de Fundão, que pertence à mineradora Samarco, cujas donas são a Vale e a BHP Billiton, afetou outras localidades de Mariana, além do leito do Rio Doce. Os rejeitos também atingiram mais de 40 cidades de Minas Gerais e no Espírito Santo e chegou ao mar. Dezenove pessoas morreram. Um corpo ainda está desaparecido. O desastre ambiental é considerado o maior e sem precedentes no Brasil.
Francisco contou que estava assistindo à novela pouco antes do rompimento de Fundão. Ele diz que a primeira lembrança que sempre vem à cabeça quando pensa no dia da tragédia é o aperto no peito que sentiu quando a sogra, Maria das Graças, chamou a mulher dele, Marli, para acompanhá-la até em casa. “Acho que foi um sinal de Deus, deve ser”, afirmou. Naquela tarde, Marli recusou o convite da mãe, e ficou em casa. Maria das Graças Celestino Silva é uma das vítimas da tragédia.
Diferentemente da idosa, ele morava na parte mais alta de Bento Rodrigues, área em que as construções ficaram intactas. Como a lama não chegou até a casa de Francisco, ele conseguiu preservar recordações de Bento Rodrigues, além da memória. Uma delas é um sofá, o único móvel que não teve que vender ou doar por causa das três mudanças: primeiro para um hotel, depois para um apartamento, onde a família não se adaptou, e, por último, uma casa de três quartos e sala grande.
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