
02/08/2016
Ivan Henriques é um desses sujeitos que vivem com a cabeça no mundo da lua. Quer dizer, a dele, para definir com precisão cirúrgica, tem ficado um pouco mais longe, na superfície de Marte. Há um ano, o artista-cientista (a definição do que vem a ser isto está mais adiante, caso o termo cause estranhamento) começou a trabalhar em parceria com a Agência Espacial Europeia. Mas o que um escultor formado pela UFRJ tem a ver com um programa para astronautas? Bom, Henriques, que mora há sete anos na Holanda, criou um projeto de terraformagem para tornar nosso vizinho um lugar habitável. Sua ideia consiste em espalhar drones que sugam o nitrogênio e o gás carbônico abundantes do planeta e soltam oxigênio, essencial para nós, terráqueos. Para resumir, os robozinhos vão “dar uma de planta”, imitando a fotossíntese. O formato dos drones é esférico, com espátulas laterais que parecem a semente de uma árvore de maple — elas geram energia girando em espiral, semelhantes aos nossos saudosos pirocopteros, os palitos de pirulito que voavam por aí nos anos 1980. Com isso feito, o céu deixa de ser o limite. Dá para repetir o processo na Lua, em Saturno, Urano... E tudo sem ter a cabeça explodida, como no clássico filme “O vingador do Futuro” (1999), protagonizado por Arnold Schwarzenegger.
Esta não é a única excentricidade brilhante bolada pelos neurônios de Henriques. Algumas delas — um recorte dos últimos cinco anos de trabalho — estarão expostas de 4 de agosto a 22 de outubro, na mostra “Relandscape/Repaisagem”, que entrará em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. A exposição com entrada gratuita é uma mistura de arte com ciência, o que nos leva a definir agora a profissão não convencional deste carioca.
Filho de pai engenheiro com mãe da área biomédica, ele cresceu desenhando as engrenagens que via nos livros da biblioteca de casa, antes mesmo de aprender a ler. Mais tarde, começou a misturar peças de objetos e fazer assemblagens. Foi por isso que o ensino classicista da faculdade de Escultura da UFRJ o tornou um pouco rebelde nos seus 20 e poucos anos. A redenção veio depois, com um mestrado na Holanda, que misturava arte com ciência e que ajudou o inventor a traçar seu horizonte futuro.
Henriques conta que começou miudinho, oferecendo suas ideias malucas para instituições e cientistas — por incrível que pareça, não recebeu negativas nem para os seus devaneios mais profundos. Hoje, depois de ser premiado por países gabaritados como Japão, Austrália e Áustria, sua caixa de e-mails vive lotada de propostas de parcerias. Ele entra com a ideia e os cientistas, com a execução.
— Tudo evoluiu e a arte faz parte desse processo. As ferramentas que eu uso são a ciência e a tecnologia. Eu me inspiro nessas disciplinas. Sou um artista pesquisador, curioso em saber como as coisas funcionam — define-se. — Meu trabalho vem com uma crítica aos nossos modos de produção. Tudo o que a gente usa é extraído da natureza. E chegamos num momento em que as coisas estão colapsando. É o fruto do que os filósofos chamam de era antropocêntrica, com o homem como principal modificador do meio. Como consequência disso, as máquinas duplicam de qualidade e diminuem de tamanho pela metade, a cada dois anos.
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