
27/09/2016
A ocupação da Terra pelos humanos modernos (Homo sapiens) é um dos temas mais complexos da história de nossa espécie, mas também um dos que têm maior potencial de revelar o que nos faz essencialmente humanos. Saber quando e como nossos ancestrais saíram de seu berço na África e chegaram a praticamente todos os cantos do planeta, superando obstáculos como desertos, gelo, oceanos e cordilheiras, pode nos ajudar a entender melhor a enorme variedade tanto de nossa herança genética quanto da cultural. E agora três estudos genéticos e um de modelagem climática publicados nesta quarta-feira na prestigiada revista “Nature” trazem ainda mais respostas, e dúvidas, sobre este processo.
Nos três estudos genéticos, os cientistas sequenciaram o genoma de quase 800 indivíduos de mais de 280 populações espalhadas pela Terra, algumas delas nunca antes analisadas em detalhes, em busca de variações que pudessem dar mais pistas sobre a cronologia e número de ondas migratórias dos humanos modernos a partir da África, chegando a conclusões conflitantes.
No primeiro deles, pesquisadores liderados por David Reich, da Universidade de Harvard, EUA, relatam o sequenciamento do genoma de 300 pessoas de 142 populações diferentes geralmente pouco representadas em estudos de grande escala sobre a variabilidade genética humana. Segundo eles, as análises indicam que as populações humanas atuais começaram a se diferenciar umas das outras há pelo menos 200 mil anos, com as não africanas acumulando mutações a um ritmo superior ao das populações africanas. Segundo eles, este e outros resultados sugerem que todas populações não africanas de hoje são descendentes de uma única população ancestral que deixou nosso continente de origem em uma onda migratória até 100 mil anos atrás, com ela divergindo apenas posteriormente em duas que seguiram para o Leste e o Oeste da Eurásia.
Já no segundo estudo, os cientistas procuraram retraçar a história genômica dos aborígenes australianos, formada por populações em grande parte geneticamente distintas e cuja chegada na Oceania há estimados mais de 50 mil anos por vezes é usada como argumento para defender a ideia de múltiplas ondas migratórias dos humanos modernos a partir da África. Assim, os pesquisadores liderados por Mait Metspalu, do Biocentro da Estônia, contaram com a colaboração de anciões e líderes tribais dos aborígenes – que assinam o artigo como coautores - para obter e sequenciar o DNA de 83 indivíduos destas populações, além de 25 da vizinha Papua-Nova Guiné.
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