
17/11/2016
Enquanto representantes de quase 200 países discutem em Marrakesh, Marrocos, como colocar na prática o Acordo de Paris e a necessidade de aumentar suas ambições, dois estudos publicados esta semana em prestigiados periódicos científicos trazem amostras de possibilidades extremas para o aquecimento global e os efeitos das mudanças climáticas por ele trazidas na vida do planeta. No primeiro, cientistas liderados por Tobias Friedrich, da Universidade do Havaí, EUA, usaram dados do histórico da Terra nos últimos 784 mil anos para sugerir que a alta na temperatura média do mundo pode ultrapassar os 7 graus Celsius até o fim deste século, muito acima dos 2 graus Celsius considerados o limite para evitar as piores consequências no clima do aquecimento global. Já no segundo, pesquisadores encabeçados por Brett Scheffers, da Universidade da Flórida, também nos EUA, fizeram um levantamento da literatura científica produzida nos últimos anos em busca de sinais de como o aquecimento ocorrido até agora, de cerca de 1 grau Celsius, está afetando a vida na Terra, revelando impactos em nada menos do que 82% dos processos biológicos e sistemas ecológicos básicos do planeta.
Segundo os responsáveis pelo primeiro dos estudos, relatado na revista “Science Advances”, a possível alta calculada na temperatura, muito mais radical do que a que está sendo prevista mesmo no pior dos cenários traçados no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2014, seria derivada de uma sensibilidade maior que a estimada do clima ao aumento na concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, em especial nos chamados períodos interglaciais, como o que o planeta atravessa agora. Isto porque embora se saiba que o CO2 provoque um desequilíbrio no balanço energético da Terra, fazendo que ela retenha mais calor e, consequentemente, elevando a temperatura na sua superfície, a influência desta variável nesse processo ainda é objeto de muitas incertezas, a despeito dos grandes avanços na construção de modelos matemático-computacionais do sistema climático terrestre nas últimas décadas.
Diante disso, os cientistas decidiram tentar chegar a este número analisando diversas reconstruções dos históricos de temperatura e concentração de CO2 na atmosfera ao longo de 784 mil anos. Para tanto, primeiro eles montaram curvas da temperatura média da Terra a partir de dados obtidos na análise de sedimentos marinhos, amostras de gelo e simulações computacionais cobrindo os oito últimos ciclos glaciais do planeta. Já para calcular o balanço energético da Terra no mesmo período, eles estimaram as concentrações de CO2 na atmosfera com base em bolhas de ar encontradas nas mesmas amostras de gelo, além incorporar fatores astronômicos, como os chamados Ciclos de Milankovitch, oscilações periódicas na órbita terrestre.
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