
14/02/2017
Julho de 2016. O governo do Japão decidiu suspender a ordem de evacuar o distrito de Odaka, um dos que foi diretamente atingido pelo desastre nuclear de Fukushima que acontecera cinco anos antes e obrigara mais de 90 mil pessoas a deixarem suas casas sob pena de serem vítimas de irradiação. Koichi Nemoto, um dos agricultores desalojados, corajosamente voltou à sua casa e foi acompanhado pelas câmeras da TV japonesa NHK para o documentário chamado “Floresta radioativa”. Uma surpresa o esperava: semidestruída e sem a presença de humanos, sua casa, assim como todas as outras em volta, passaram a ser abrigo para animais selvagens. Uma família de javalis havia se instalado na residência dos Nemoto.
É do que se trata o vídeo, que tem uma interessante maneira de divulgar um dos muitos paradoxos que vivemos nessa era. A presença de animais selvagens, que naquela situação estavam convivendo pacificamente com os poucos cientistas e pesquisadores que andam pelos arredores da usina que vazou por causa de um terremoto que provocou um tsunami em março de 2011, tem um aspecto muito positivo para o ecossistema. Ao mesmo tempo, pode ser uma ameaça ao humano, raça que está no topo da cadeia alimentar.
“Quando cheguei, os javalis me olharam como se eu fosse o intruso, é claro. Eu me preocupo por que estou vivendo com todos os cuidados e é como se eu, o humano, estivesse dentro de uma gaiola. No fim das contas, é isso que está acontecendo”, disse Nemoto.
Descobri o vídeo documentário na internet quando estava à procura de confirmação para uma notícia que eu recebera, dando conta de que os técnicos da Tokyo Electric Power (Tepco), empresa que mantém a usina, tinham descoberto ainda níveis muito altos de radiação dentro de um dos reatores danificados. Infelizmente a notícia procede e foi divulgada pelo jornal britânico “The Guardian” na semana passada.
“Mesmo que uma margem de erro de 30% seja levada em conta, a leitura recente, descrita por alguns especialistas como "inimaginável", é muito maior do que o recorde anterior de 73 sieverts por hora detectado pelos sensores em 2012”, escreveu o repórter Justin McCurry.
Ocorre que uma única dose de svieter, a medida usada para avaliar a o nível de radiação, já é suficiente para causar náuseas e deixar a pessoa mal. Cinco svieters matam a pessoa em um mês, e dez svieters são fatais em uma semana, ainda segundo a reportagem. A Tepco diz que, por enquanto, a descoberta dos pesquisadores é apenas uma hipótese, e que precisa de mais tempo para confirmar a notícia. Para reconhecer este estudo recente, a empresa pretende enviar um robô que pode suportar até mil svieters. Mas os porta-vozes da Tepco se apressam em afirmar que o vazamento é interno, não está vindo para o exterior, o que é confirmado em outras reportagens sobre o tema que estão na internet.
Sorte para o pessoal de Odaka, que ao voltar para casa correu o risco de ter que enfrentar os animais selvagens além de ainda se expor à radiação. De qualquer maneira, a decisão do governo japonês em liberar as áreas de radiação é bem corajosa e não seguiu o exemplo de Chernobyl, na Ucrânia, que no ano passado completou 30 anos. Lá, até hoje é proibido pisar. Foram mais de 300 mil desalojados e, em quatro anos, pelo menos 600 mil pessoas trabalharam como “faxinadores” do local.
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