
09/03/2017
Eram dois micos sem espetáculo, desses que disputam com os passarinhos as árvores da maioria das cidades do Sudeste do Brasil. Morreram em Belo Horizonte e Vitória, vítimas de febre amarela em bairros urbanos de raiz. E, por isso mesmo, sua morte elevou o alerta de especialistas. Eles não sabem ainda explicar as mortes nas capitais dos dois estados que estão no epicentro do pior surto de febre amarela silvestre na História recente do Brasil. E temem pelo risco de a doença se urbanizar.
Uma parceria de pesquisadores das universidades federais do Espírito Santo e de Minas Gerais investiga os casos. Parques de Belo Horizonte foram fechados devido a mortes de macacos antes do carnaval. Mas não são apenas os parques que preocupam os especialistas, e sim toda a área urbana. Micos comuns não precisam dos parques.
O surto atual, que já chega a 1.303 casos (942 em investigação e 361 confirmados), é de febre amarela silvestre. Como indica o nome, uma doença de zonas rurais e de mata, onde vivem os mosquitos transmissores, dos gêneros Haemagogus e Sabethes. A forma urbana, causadora das devastadoras epidemias do passado, é transmitida pelo onipresente Aedes aegypti. Desta, não se tem registro no Brasil desde 1942.
O mico de Vitória vivia na abastada Ilha do Frade, uma das áreas mais valorizadas de Vitória. Chique, arborizada, mas urbana. O sagui morreu em janeiro, mas a febre amarela só foi confirmada há poucos dias. O de Belo Horizonte era de Copacabana, um bairro de classe média baixa, território de gente e não de árvore. Em comum, o mistério de como contraíram um vírus de floresta na cidade. Um mistério e um alerta que importam para a vida de milhões de brasileiros.
O primatologista da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Sérgio Lucena acompanha desde o início o surto que já causou a maior mortalidade de macacos da História da Mata Atlântica. Ele vê três possibilidades para micos urbanos do gênero Callithrix terem contraído a doença.
A pior de todas, para a qual não existe comprovação no momento, é que o Aedes começou a transmitir o vírus. A segunda, que os mosquitos silvestres se tornaram mais urbanos. Na zona rural eles já vivem junto às casas.
— Uma outra hipótese é que o ser humano também está espalhando a doença. Pessoas assintomáticas podem viajar, ser picadas por um mosquito transmissor e este picar um macaco. Isso explicaria a velocidade com que a febre amarela se propagou. Vale lembrar que a maioria dos casos de febre amarela em seres humanos não causa sintomas ou eles são brandos. Os que vemos notificados são apenas os graves — afirma Lucena, do Laboratório de Biologia de Conservação de Vertebrados da Ufes.
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