
23/03/2017
Num mundo em que dois terços da população vivem em áreas com escassez de água durante ao menos um mês por ano, sendo que 500 milhões de pessoas residem em regiões onde o consumo excede em duas vezes os recursos hídricos renováveis localmente, a busca por fontes alternativas é imperativa. E uma das soluções pode ser a água residual. O Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, divulgado nesta quarta-feira, Dia Mundial da Água, propõe uma alteração nos paradigmas sobre a destinação das sobras da produção agrícola e industrial, e do consumo nas cidades: de “tratamento e eliminação”, para “reúso, reciclagem e recuperação de recursos”.
— A água residual é um recurso valioso num mundo onde a água é finita e a demanda é crescente — disse Guy Ryder, presidente da ONU-Água e diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho. — Todo mundo pode fazer a sua parte para alcançarmos o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável de cortar pela metade a proporção de águas residuais não tratadas e aumentar a reutilização segura do recurso até 2030. É apenas cuidar da gestão e reciclagem da água que corre pelas nossas casas, fábricas, fazendas e cidades.
Segundo a base de dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as extrações globais de água doce no mundo foram de 3.928 km³ em 2010, sendo que as retiradas cresceram cerca de 1% ao ano ao longo das últimas três décadas. Desse total, cerca de 70% foi destinado para a agricultura, outros 19% foram para a indústria e apenas os 11% restantes foram usados pelas cidades. A quantidade de água que as pessoas bebem, de aproximadamente dois litros por dia, representa apenas uma fração do total.
Mas o cuidado com a água após o uso ainda é precário. Os países de renda alta tratam, na média, cerca de 70% das águas residuais urbanas e industriais que produzem, mas essa proporção cai para 38% nos países de renda média-alta e para 28% nos países de renda média-baixa. Nos países de renda baixa, apenas 8% dos resíduos são submetidos a algum tipo de tratamento. No mundo, mais de 80% das águas residuais são despejadas no meio ambiente sem o cuidado adequado.
Os números sobre o acesso a serviços básicos de saneamento são estarrecedores: de acordo com o relatório, 2,4 bilhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso a instalações sanitárias adequadas, e quase 1 bilhão de pessoas ainda praticam a defecação ao ar livre. Estima-se que 842 mil mortes ocorridas em países de renda média e média-baixa em 2012 foram causadas por água contaminada, pela falta de instalações para a higiene e por serviços sanitários inadequados. Essa situação contribui para o avanço de algumas doenças tropicais, como a cólera.
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