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Sagrado para os hindus, o Rio Ganges está morrendo

18/07/2017

Fonte de abastecimento para 400 milhões de pessoas e adorado por um bilhão de hindus, o Rio Ganges está morrendo, apesar de décadas de esforços do governo para salvá-lo. Conhecido como “Mãe Ganga”, o rio nasce cristalino no alto da Cordilheira do Himalaia, mas o despejo de poluentes e o uso descontrolado das águas o transformam numa lama tóxica ao longo de sua jornada por grandes cidades e centros industriais.
Milhares de indianos mergulham e oferecem imagens de deuses diariamente no rio sagrado, na crença de que a tradição irá absolver os seus pecados, e a água ainda é usada para consumo humano e na produção agrícola ao longo dos 2.525 quilômetros de extensão. Um dos adoradores do rio é o sacerdote hindu Lokesh Sharma, de 19 anos. Morador de Devprayag, uma pequena cidade montanhosa onde dois rios convergem para formar o Ganges, ele representa a quarta geração de sua família a comandar orações e entregas de oferendas na margem do rio, que engarrafam um pouco da água e mergulham nas corredeiras.
— Eu nunca pensei em sair daqui — comentou Sharma, em entrevista à Reuters. — Devprayag é um paraíso para mim. Eu me sinto abençoado por ter nascido perto da Mãe Ganga.
Embaixo de pontes na cidade industrial de Kanpur, a cor da água do Ganges é cinza escuro. Despejos industriais e esgoto são jogados nas águas por tubulações abertas, e nuvens de espuma se formam sobre a superfície. Em outro trecho, onde trabalhadores de curtumes transportam tambores cheios de produtos químicos, o rio fica vermelho.
Para tentar reverter este quadro, o governo do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, prometeu a construção de usinas de tratamento e a remoção dos curtumes para longe, mas o plano de limpeza, orçado em US$ 3 bilhões, está longe de ser posto em prática. A estimativa é que menos de um quarto dos 4,8 bilhões de litros de esgoto despejados diariamente no Ganges seja tratado.
O estado lamentável do Ganges é mais sentido em Varanasi, a mais antiga e sagrada das cidades hindus. Religiosos praticam ioga, peregrinos buscam purificação espiritual e famílias cremam seus parentes mortos na beira do rio, espalhando as cinzas nas águas para que as almas sigam para o paraíso e escapem do ciclo do renascimento.
— Eu lembro que antes a água era muito limpa e a gente podia bebê-la — contou Anil Sahni, de 58 anos. — Agora ninguém pode nem se banhar.
O rio segue o seu caminho, em direção ao Golfo de Bengala, passando por milhares de vilarejos e cidades. Na metrópole de Kolkata, com 14 milhões de habitantes, as pessoas tomam banho e escovam os dentes ao lado de montanhas de lixo.
— Eu me sinto triste com o que está acontecendo. O Ganges está ficando cada dia mais sujo, mas ninguém se importa. Nem mesmo os seus filhos — disse o religioso Ashok Kumar, de 66 anos. — O Ganges é nossa mãe. Não haverá futuro se ela morrer.

Fonte: O Globo

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