
03/10/2017
No dia 11 de março de 2011, um forte terremoto seguido de tsunami devastou cidades inteiras no Japão, provocando a morte de quase 30 mil pessoas e desencadeando um fenômeno inesperado: a maior migração marinha já registrada pela ciência. Agarrados em destroços plásticos, milhões de criaturas de ao menos 289 espécies cruzaram 7.700 quilômetros ao longo Oceano Pacífico e chegaram ao Havaí e à costa oeste americana.
— Isso resultou num dos maiores experimentos naturais não planejados em biologia marinha, talvez na história — comentou John Chapman, da Universidade Estadual do Oregon e coautor de estudo publicado esta semana na “Science”.
Os cientistas começaram a detectar os primeiros destroços chegando ao território americano em 2012, e perceberam a presença de organismos vivos. Desde então, eles continuaram encontrando escombros oriundos do tsunami no Japão, como boias, caixas, embarcações e docas. No total, foram identificadas 289 espécies naturais de águas japonesas, mas é provável que muitas outras não tenham sido encontradas.
Espécies de moluscos, como mexilhões, foram as mais numerosas, mas foram recolhidos vermes, hidroides (parentes das anêmonas e águas-vivas), crustáceos e colônias de ectoproctas. Quase dois terços das espécies nunca haviam sido vistas na costa americana, e nenhuma delas deveria ter sobrevivido a uma viagem intercontinental, pois o mar aberto é considerado um ambiente inóspito para criaturas que habitam zonas costeiras.
— Eu não imaginava que esses organismos costeiros pudessem sobreviver no mar por longos períodos de tempo — afirmou Greg Ruiz, coautor da pesquisa e biólogo marinho do Centro de Estudos Ambientais Smithsonian. — Mas eles apenas não tiveram muitas oportunidades no passado. Agora, o plástico pode combinar com tsunamis e tempestades para criar esta oportunidade em grande escala.
Carregadas pelas correntes marinhas, essas “jangadas” de plástico improvisadas viajam lentamente, a dois ou três quilômetros por hora. Dessa forma, elas permitiram que as criaturas se ajustassem gradualmente ao novo ambiente. E o ritmo lento dessas ilhas flutuantes permitiu que os animais se reproduzissem e as larvas fossem mantidas nos próprios destroços.
Grande parte dos destroços encontrados eram de materiais que demoram para se decompor, como fibra de vidro e plástico. E migrações inesperadas com espécies invasivas podem provocar desequilíbrios nos ecossistemas receptores. Por esse motivo, os pesquisadores alertam sobre a problemática do lixo plástico produzido e despejado nos oceanos, já que prevenir tsunamis e furacões não é uma opção.
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