
06/03/2018
Na palavra dos pesquisadores, a situação é preocupante, e ainda agravada pelo histórico de escassez de água na região Nordeste. Segundo o resultado de um estudo recente, constatou-se que a água dos cinco principais açudes que abastecem a população do município de Campina Grande e seus entornos, na Paraíba, é imprópria para o consumo humano. De acordo com as análises feitas – metagenômica, toxicologia, dosagem de toxinas e metais pesados –, essas águas contêm níveis consideráveis de cianobactérias, que, por sua vez, produzem quantidade de cianotoxinas acima do tolerável ao organismo humano.
A pesquisa, que foi apresentada ao Ministério da Saúde e está sendo publicada esta semana no jornal científico Frontiers in Microbiology (https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmicb.2018.00176/full), reuniu cientistas do Instituto Butantan, do Instituto de Pesquisas de Campina Grande (Ipesq), da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), do Instituto de Biologia (IB) e do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) – já parceiros no estudo da associação entre o vírus zika e a microcefalia.
Nos laboratórios da Coppe e IB, na UFRJ, no Rio de Janeiro, os testes realizados nas amostras recolhidas nos cinco açudes – Araçagi, Boqueirão, Saulo Maia, Galante e Mazagão – revelaram que aproximadamente 10% das comunidades microbianas dessas águas correspondem a cianobactérias – incluindo grupos potencialmente tóxicos, como Microcystis e Cylindrospermopsis. As análises também indicaram a presença de níveis significativos de cianotoxinas nessas águas. “O estudo demonstrou que açudes submetidos a longos períodos de estiagem estão sujeitos à proliferação de microrganismos tóxicos. E essa água poluída representa uma séria ameaça à saúde humana”, afirma o pesquisador Fabiano Thompson, Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, e responsável pelo trabalho no Rio de Janeiro.
A situação descrita pelos pesquisadores é fácil de entender. Como explica Thompson, a ação humana – pela constante descarga de esgoto, efluentes industriais e chorume de fertilizantes agrícolas – leva à formação de uma maior concentração de matéria orgânica, especialmente nitrogênio e fósforo, em ambientes aquáticos, favorecendo o crescimento excessivo de plantas, que formam uma camada densa sobre a superfície da água, impedindo a penetração da luz e prejudicando a fotossíntese nas camadas inferiores. O resultado é um déficit de oxigênio, dificultando a vida de peixes e mamíferos aquáticos. Os que não conseguem sobreviver nesse meio cada vez mais insalubre, contribuem, por sua vez, para aumentar os níveis de matéria orgânica, agravando o círculo vicioso que acentua as más condições dessas águas. É o chamado processo de eutrofização.
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