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Países em desenvolvimento devem estudar tecnologias contra mudanças climáticas

12/04/2018

Trilhões de discos posicionados na estratosfera formam um bloqueio para filtrar a radiação solar que chegaria à Terra. Milhares de navios dispersos pelos oceanos são usados na formação de nuvens, evitando a chegada da luz do Sol na superfície do planeta. Soa como ficção científica, mas essas técnicas para o combate ao aquecimento global já são estudadas nos EUA e na Europa. Agora, outras nações querem juntar-se à pesquisa. Em artigo publicado na semana passada na revista “Nature”, cientistas de países em desenvolvimento anunciam um fundo de US$ 400 mil para o estudo da geoengenharia, como são conhecidas essas medidas que, em um futuro não tão distante, podem ser a derradeira tentativa de conter as mudanças climáticas.
De acordo com os cientistas, os países do Hemisfério Sul serão os mais afetados pelo aquecimento global — por isso, é fundamental que tenham meios para reagir a eventos extremos, como o aumento do nível do mar. Atualmente, os efeitos da geoengenharia são incertos, porque os estudos estão restritos a simulações em computador e pouco consideram as variações climáticas regionais.
— Os países em desenvolvimento devem liderar a pesquisa em geoengenharia solar. Hoje, porém, não há grupos de estudo no Brasil, na Índia ou em qualquer outra localidade que mais sentirá os impactos das mudanças climáticas, devido à nossa falta de infraestrutura e recursos humanos — lamenta Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e um dos signatários do artigo. — Ninguém estuda geoengenharia aqui, e temos questões muito específicas para resolver, como o que pode ser feito para preservar a Amazônia.
Artaxo ressalta que algumas técnicas de geoengenharia já são viáveis, como jogar partículas de aerossóis na estratosfera, filtrando a radiação solar. No entanto, é possível que esse plano mude o regime de chuvas do planeta e, com isso, a fotossíntese de diversos seres vivos e a manutenção da biodiversidade.
— Qual é a melhor técnica de geoengenharia? A verdade nua e crua: nenhuma — observa Artaxo. — Mas a discussão deve ser global porque, daqui a 20 ou 30 anos, a Humanidade pode ser obrigada a apelar para um desses projetos. Não estamos conseguindo reduzir a concentração de gases de efeito estufa. Ao contrário: houve um aumento de 2% entre 2016 e 2017. Alguns países, como a Alemanha, já disseram que não conseguirão cumprir as metas para corte de emissões que estabeleceram no Acordo de Paris.
Ao lado de Artaxo, outros 11 cientistas, a maioria de países em desenvolvimento, lembram que a geoengenharia solar levanta questões sociopolíticas difíceis que não podem ser eliminadas. Por exemplo, quem teria o direito de implementar uma tecnologia que é inerentemente global, e como saber se as medidas favoráveis a uma região do planeta não prejudicariam outra localidade.
Em simpósios, representantes dos países em desenvolvimento opuseram-se à implementação da tecnologia em seu atual estágio, mas reivindicaram apoio a estudos sobre impactos locais provocados pelas mudanças climáticas. Como disse um participante de um encontro no Quênia, “a geoengenharia é uma ideia louca, mas precisamos entendê-la”.
Houve alguns progressos tímidos nos estudos na última década. Novas pesquisas mostraram que, ao contrário do que se pensava pouco tempo atrás, a geoengenharia solar não atrapalhará as chuvas de monções no Oceano Índico, que são cruciais para a agricultura na Índia.

Saiba mais em O Globo

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