
12/07/2018
Diferente do que muitos pensam, os primeiros cães do continente americano não eram lobos domesticados, mas migrantes vindos da Sibéria, pelo Estreito de Bering, junto com seus donos humanos. Do extremo norte das Américas, eles se espalharam por todo o continente ao longo de milhares de anos, mas, de forma ainda misteriosa, desapareceram após o contato de povos europeus com os nativos, revela estudo publicado na revista “Science” nesta quinta-feira, que se debruçou no DNA de vestígios arqueológicos de 71 cães americanos e siberianos.
— Olhando os dados genômicos junto com dados mitocondriais, nós fomos capazes de confirmar que os cães vieram para as Américas com humanos, e que praticamente toda aquela diversidade foi perdida, muito provavelmente como resultado da colonização europeia — afirmou Kelsey Witt, pesquisador da Universidade de Illinois e coautor do estudo.
Os mais antigos vestígios arqueológicos de cães no continente americano datam de aproximadamente 9,9 mil anos atrás, cerca de 6 mil anos mais recentes que as primeiras evidências de atividade humana. Entretanto, não é possível determinar o momento preciso da chegada dos primeiros animais.
As origens geográficas também não são completamente conhecidas, mas uma análise genética de cães modernos e antigos, incluindo DNA de restos de animais encontrados na América do Norte e na Sibéria, revela uma árvore de ancestralidade relacionada com uma antiga raça de cães da Sibéria Oriental. A pesquisa também descartou a tese de que os primeiros cães americanos eram lobos domesticados. As evidências genéticas indicam que eles foram introduzidos pela Beríngia — conhecida como Ponte Terrestre de Bering. E se espalharam por todo o continente.
Mas assim como entre os povos nativos humanos, as populações de cães que prosperaram por milhares de anos no continente desapareceram repentinamente após o contato com europeus, no século XV. Praticamente todos os traços genéticos dos cães nativos americanos, e os próprios animais, deixaram de existir.
— Este estudo demonstra que a história dos humanos é espelhada em nossos animais domésticos — comparou Greger Larson, professor de bioarqueologia na Universidade Oxford e participante da pesquisa. — As pessoas na Europa e nas Américas eram geneticamente distintas, e assim eram seus cães. E assim como os povos indígenas das Américas foram deslocados pelos colonos europeus, o mesmo aconteceu com seus cães.
Os pesquisadores sugerem que os cães nativos foram preteridos pelos conquistadores no comércio e na procriação e, por esse motivo, deixaram poucos rastros genéticos nos cães modernos. Nem mesmo as raças intrinsecamente ligadas ao nosso continente, como o labrador — originário do Canadá — e o mexicano chihuahua, possuem descendência dos cães nativos americanos.
As análises revelaram apenas um traço genético presente nos cães modernos, relacionado com o sarcoma venéreo transmissível canino, um tipo de câncer transmitido pela implantação de células tumorais em ferimentos na pele, principalmente durante o coito. A doença se originou nas células de um único cão, que provavelmente viveu nas Américas antes do contato europeu, mas seu genoma se espalhou por todo o mundo.
— É incrível pensar que provavelmente o único sobrevivente de uma linhagem perdida de cães é um tumor que pode se espalhar como uma infecção — disse Maire Ní Leathlobhair, do departamento de Veterinária da Universidade de Cambridge. — Apesar de o DNA deste câncer ter mutado ao longo dos anos, ele é essencialmente o DNA do cão fundador de milhares de anos atrás.
Fonte: O Globo
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