
19/07/2018
Descoberta há menos de 40 anos, mas pouco conhecida até agora, a bactéria Mycoplasma genitalium (MG) entrou no radar de especialistas, principalmente na Europa, por conta da resistência que vem desenvolvendo aos antibióticos usados no tratamento. Ela é transmitida sexualmente e pode provocar infecções nos órgãos sexuais de homens e mulheres, incluindo o risco de infertilidade ou complicações durante a gestação. No final da semana passada, a Associação Britânica de Saúde Sexual e HIV (BASHH, na sigla em inglês) emitiu um alerta com novas diretrizes de tratamento para evitar que a MG se torne uma “superbactéria” nos próximos dez anos. Sua disseminação ocorre principalmente no continente europeu, mas o Ministério da Saúde monitora a circulação no Brasil. O problema é que há poucos dados sobre a incidência no país.
A infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela MG não é de notificação compulsória no país. Por isso, não se sabe exatamente quantos casos há no Brasil. Além disso, apenas uma pequena parcela das pessoas infectadas manifesta sintomas, o que pode fazer com que a transmitam sem saber. Quando a doença se manifesta, os sintomas podem causar grande desconforto.
O Ministério da Saúde informou, em nota, que monitora desde o ano passado a ascensão da MG, “que ocorre principalmente no continente europeu, tanto pelo aumento da prevalência quanto pelo aumento da resistência antimicrobiana”. A pasta informou ainda que existem no país estudos de prevalência regionais que demonstram que a bactéria é muito menos frequente que outros agentes como o da gonorreia e o da clamídia.
O ginecologista Newton Sérgio de Carvalho, membro da Comissão Nacional Especializada de Doenças Infecto-contagiosas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), explica que esta bactéria não tem uma “carapaça” que envolve as bactérias, a membrana citoplasmática. Isso já é um fator que a torna resistente a uma série de antibióticos que atuam degradando justamente essa parte. De acordo com o médico, para o “Quinolonas”, uma classe de antibióticos indicada para esse tipo de bactéria, a MG já já apresenta uma média de 5 a 10% de resistência.
— Sua própria constituição, portanto, tem uma resistência natural. O segundo ponto é que, mesmo com antibióticos usuais, a bactéria tem uma capacidade de criar resistência a eles, fazendo com que não funcionem. Alguns que têm efeito para clamídia, por exemplo, não funcionam para ela. Mesmo em antibióticos mais modernos ela tem apresentado resistência — afirma o médico, que é professor titular de ginecologia da Universidade Federal do Paraná. — É um agente emergente e recente, descoberto em 1980, que está se tornando cada vez mais resistente.
O ginecologista destaca que a MG é uma preocupação para todos os lugares do mundo, incluindo o Brasil. Tem uma prevalência de 1 a 2% na população geral. O índice cresce para cerca de 10% entre os adolescentes, diz ele.
— É pouco conhecida. Ficamos com a clamídia no foco e se perde a MG, o que não deveria acontecer. A clamídia tem muito menos resistência e responde melhor aos antibióticos mais simples.
Além disso, a MG é um micro-organismo que pode não causar sintomas. Na maioria das vezes, a pessoa tem a bactéria e não sabe disso. A partir daí, poderia, no futuro, sofrer consequências da infecção sem saber a origem do problema. Das pessoas contaminadas, segundo Newton, apenas 10% apresenta sintomas.
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