
03/01/2019
A conversa entre amigos girou sobre o calor que nos espera, aqui no Rio de Janeiro, nestes primeiros dias do ano. Não quisemos esquentar mais a noite festiva trazendo o assunto da posse presidencial porque correríamos o risco de voltarem à cena as desagradáveis discussões polarizadas que, de verdade, agora não valeriam de mais nada. O fato foi dado, resta vivê-lo de maneira digna. Falemos, então, sobre o clima.
O sol está mais quente? Ou a cidade está mais cheia, com menos árvores e mais carros? Ou é isso tudo junto que tira a vontade de botar uma roupa adequada e pegar o caminho da praia para se refrescar? E alguém consegue se refrescar na praia, de verdade?
Sim, a cidade cresceu. Tenho aqui nos meus arquivos a evolução, em números, deste crescimento. Em 1920 éramos 1.157 milhão de pessoas dividindo o mesmo território que, hoje, abriga cerca de 6,5 milhões. A cidade do Rio de Janeiro é a segunda maior aglomeração urbana do país e a terceira da América Latina.
Mas este não pode ser o problema, já que cidades foram feitas como atrativo para reunir pessoas em busca de relação e contato. É dessa forma que se consegue criar, atividade que, verdadeiramente, nos diferencia dos animais. Sozinho, o homem não consegue mais do que, apenas, sobreviver. É quando está em grupo que as ideias se encontram e se proliferam.
Sendo assim, o que saiu errado foi mesmo a forma de administrar estes espaços chamados cidades, que hoje já atraem mais de 50% da população mundial. Foi quando as cidades viraram uma vitrine para atrair não só pessoas mas todo o tipo de negócio e de especulações, que elas começaram a deixar de lado algo que não podia ser deixado de lado: o bem estar dos cidadãos comuns.
Quando o tema é este, gosto muito de trazer a história de “A Carta de Atenas”, livro que traz a interpretação do arquiteto Le Corbusier sobre as conclusões do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna de 1933. O exemplar que tenho em mãos foi editado no Brasil, pela USP, em 1993, e traz uma definição para o urbanismo que nos ajuda a expandir os pensamentos sobre o incômodo que muitos de nós sentimos, vivendo numa grande cidade como o Rio de Janeiro.
“Urbanismo é a administração dos lugares e dos locais diversos que devem abrigar o desenvolvimento da vida material, sentimental e espiritual em todas as suas manifestações, individuais ou coletivas”.
Falávamos, durante a reunião festiva, sobre o projeto urbanístico que transformou – para melhor, sem dúvida – a área do Porto do Rio de Janeiro, mas também sobre como é difícil passear ali sob um sol inclemente como o que nos está castigando nestes dias. Não há árvores ou,se há, são aquelas que não dão sombra. Impossível se sentir bem ali. Espaços verdes são essenciais numa aglomeração urbana que às vezes provoca ilhas de calor intensas, com sensação térmica muito superior a 40 graus. Portanto, deveria ser a primeira providência dos arquitetos.
Leia um dos trechos da Carta de Atenas no G1
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