
08/01/2019
Às vésperas de um verão em que, mais uma vez, as doenças relacionadas ao mosquito Aedes aegypti podem assolar a saúde pública, um projeto que estudaria a alimentação do mosquito, impedindo que ele buscasse o sangue de um mamífero, parece fundamental. O programa era desenvolvido na UFRJ, até que o dinheiro acabou. O grupo responsável também diminuiu — de 38 cientistas em junho, agora são 30. Entre os desfalques estão três pesquisadores do pós-doutorado, que costumam ser os principais colaboradores dos chefes de laboratório.
O Globo entrevistou a bioquímica Georgia Atella, que espera a verba para retomar o trabalho, e outros 19 cientistas de destaque de diversas áreas e instituições brasileiras. A maioria acredita que, em 2019, o setor será novamente vitimado pela crise econômica que acomete o país.
A posse do presidente eleito Jair Bolsonaro não empolga os cientistas, que afirmam ainda desconhecer sua estratégia para a ciência nacional. A escolha da equipe ministerial também foi criticada. O novo titular do Itamaraty, Ernesto Araújo, nega a existência das mudanças climáticas, e o indicado para a pasta da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, que assumiu o cargo ontem em uma cerimônia simbólica, não é um quadro técnico.
Mas também há quem acredite que o discurso nacionalista de Bolsonaro possa reverter a penúria já prevista para o orçamento do ano que vem. Se incentivar tecnologias brasileiras, em vez de apenas importar equipamentos do exterior, o presidente eleito pode reverter tendências como a perda de até um terço dos recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq). O órgão, que contou com R$ 1,2 bilhão em 2018, terá R$ 800 milhões à disposição em 2019. A redução da verba afetará o lançamento de editais e o auxílio a até 80 mil bolsistas.
— Eles são a base da pesquisa científica brasileira e devem ser valorizados — reivindica Georgia Atella. — Incentivo os pós-doutores a saírem do país e não voltarem tão cedo, devido à crise econômica. Os laboratórios estão cada vez mais vazios. Tivemos um período de prosperidade e agora vamos retroceder 20 anos.
Representantes de entidades científicas já manifestaram desconforto para Marcos Pontes com os cortes orçamentários. Helena Nader, presidente emérita da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), acredita que, em 2019, o país será contaminado por uma falta de visão:
— Vamos virar as costas para o setor que poderia nos salvar da crise.
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