
08/01/2019
Treze dias após a mortandade de peixes na Lagoa de Piratininga, a situação por lá ainda é caótica, apesar de a prefeitura afirmar que já recolheu mais de seis toneladas de animais mortos. Na altura do Tibau, o cenário é desolador: os bichos se decompõem em meio ao lodo e ao esgoto levado pelo último temporal. O cheiro forte, de uma espécie de gás, que é inalado por quem chega perto faz arder os olhos. Moradores contam que episódios como esse viraram rotina e revelam o descaso com que o sistema lagunar vem sendo tratado ao longo dos anos, embora várias obras tenham consumidos pelo menos R$ 20 milhões dos cofres públicos.
Segundo o Inea, a mortandade de peixes ocorreu pela ausência de oxigênio na água, provocada pela grande volume de esgoto que chegou até a lagoa, levado pela chuva. O GLOBO-Niterói esteve no local na última quarta-feira e constatou que havia cardume morto numa extensão de pelo menos um quilômetro, sem contar com a trecho onde não foi possível chegar. Não havia equipes de limpeza por lá.
— Vieram cerca de dez garis da Clin aqui no dia seguinte à mortandade e, num trabalho braçal e feito de forma precária, não removeram nem 1% da quantidade de peixes mortos — conta o morador do Tibau Pedro Paulo Gomes, que lamenta a situação. — Para nós, que somos de comunidades tradicionais daqui, vermos essa situação é muito difícil. Minha mulher chora quase todos os dias.
A Lagoa de Piratininga tem como principais afluentes os rios Jacaré, de maior vazão, e o Cafubá, de onde partiu a maior quantidade de rejeitos no último temporal. A prefeitura, que assumiu a gestão do sistema lagunar da Região Oceânica de forma compartilhada em 2016, diz que os estudos para monitoramento do ecossistema estão em andamento e dentro do cronograma, com previsão de conclusão para novembro. “Estão sendo realizadas campanhas de monitoramento da qualidade da água e biota e, em seguida, serão feitas simulações com modelagens matemáticas para verificar quais as melhores alternativas para recuperação da dinâmica hídrica e qualidade ambiental do sistema, considerando o cenário atual”, informa em nota.
Ainda segundo a prefeitura, o monitoramento do sistema lagunar Piratininga-Itaipu vai subsidiar o futuro Plano de Gestão Ambiental, que orientará os procedimentos e prioridades de intervenção para a despoluição e recuperação ambiental das duas lagoas. Essas ações ainda não têm previsão para serem executadas.
Um estudo feito pelo Subcomitê do Sistema Lagunar de Itaipu/Piratininga (Clip), apresentado em 2016, apontou que, desde 1979, foram gastos cerca de R$ 20 milhões em obras malsucedidas que não reverteram a degradação, como a abertura, em 2008, do túnel do Tibau (R$ 11 milhões) e o início do desassoreamento dos canais do Tibau e Camboatá, todas executadas pelo estado. O oceanógrafo Júlio César Wasserman, coordenador da rede UFF de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, diz que a degradação é acentuada em razão da falta de um monitoramento constante:
— As propostas apresentadas anos atrás já não são adequadas porque as circunstâncias mudaram, a lagoa está mais rasa, já assoreou, aumentou a salinidade. Em Niterói não há trabalho de monitoramento da água das lagoas. Isso tornaria mais fácil identificar o aumento do volume de esgoto e combater o problema.
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