
12/02/2019
A cidade do Rio de Janeiro enterrou, na última sexta-feira (8), mais mortos por conta de uma tragédia, desta vez atingindo dez jovens saudáveis e cheios de sonhos no Centro de Treinamento do Flamengo. A tristeza e o sentimento de perda se juntam às das famílias dos seis que perderam a vida durante a forte tempestade de quarta-feira (6) à noite. Sim, precisa-se de pensamentos positivos, energias boas, tudo o mais que se pode imaginar, no campo da transcendência, para a cidade. Já na vida real, pé no chão, se a primeira tragédia talvez tenha sido mesmo culpa do acaso, a catástrofe que se abateu sobre as seis vítimas merece reflexão. E medidas urgentes.
Já não é de hoje que os cientistas estão avisando sobre a necessidade de as autoridades de todo o mundo começarem a perceber que tempestades, secas, furacões vão ser cada vez mais fortes, vão causar cada vez danos maiores aos humanos mais pobres porque o clima está mudando, o planeta está se aquecendo. A cidade do Rio de Janeiro foi vítima de um desses fenômenos, vai acontecer com mais frequência. Seis pessoas foram mortas e os moradores de vários pontos da cidade – onde moram os mais pobres e vulneráveis – ainda sofrem com as consequências.
Acabo de receber, pelas redes sociais, um pedido de ajuda para os que estão no Vidigal, e o mantra é sempre o mesmo: abandonados pelo estado, precisam das pessoas físicas e estão, cada vez mais, necessitando do auxílio de organizações da sociedade civil. É a verdadeira rede social que começa a se criar em torno dessas pessoas. O bom é que costuma dar certo.
Por causa das mudanças climáticas, as grandes cidades, sobretudo as costeiras, precisam se organizar para enfrentar eventos extremos, e isto exige um compromisso real de quem as administra. Este é o ponto. O Rio de Janeiro faz parte de uma organização chamada C40 (40 cidades que buscam melhoras maneiras de viver sustentavelmente), que se junta a outras 17 redes mundiais com um objetivo bastante específico: replicar, melhorar e acelerar as ações para adaptação das cidades às mudanças climáticas. Não é fake news, não se deve ignorar. É ajuda, e tem que ser levada a sério.
Até as vésperas de terminar seu mandato, o ex-prefeito Eduardo Paes era o presidente do grupo, e transmitiu o cargo para Anne Hidalgo, prefeita de Paris, em 2016. O Rio de Janeiro tem o primeiro escritório da C40 na América Latina, instalado no Museu do Amanhã. Não sei se o prefeito Crivella o conhece, mas é hora de começar a frequentá-lo mais assiduamente.
Para se ter uma ideia, a C40 tem uma Rede de Inundação Urbana, coordenado pelas cidades Delta (Amsterdã entre elas) que conhecem bem o problema. Faço questão de reproduzir aqui um trecho da sugestão que fazem os especialistas do setor:
"Reconhecer os cursos de água geográficos e gravitacionais – tanto historicamente quanto com quantidades e frequências de fluxo alterados – e reintroduzir espaços na cidade onde a água possa fluir, evaporar ou ser armazenada. Uma mistura de infraestrutura verde e cinza é crucial para gerenciar a água e fazer com que a cidade se adapte aos riscos de inundação".
Matéria originalmente publicada no G1
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