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Testes mostram que vacina contra febre amarela pode evitar infecção pelo zika

26/03/2019

A vacina da febre amarela pode proteger contra a infecção pelo vírus zika. Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que, em testes, a vacina estimula o organismo a destruir o zika. Embora o número de casos da doença tenha diminuído nos últimos meses, a zika é uma das mais temidas infecções do mundo porque causa microcefalia e uma série de malformações em bebês, além de distúrbios neurológicos, como a síndrome de Guillain-Barré, em adultos.
Desde a epidemia de 2015, numerosos grupos de pesquisa buscam desenvolver uma vacina, até agora sem sucesso. A descoberta feita por uma equipe de 16 cientistas acena com a possibilidade de controlar o zika com uma vacina já em uso no Brasil, barata e com a segurança comprovada. A ação protetora se explica porque os vírus zika e da febre amarela são parentes próximos. Pertencem à família dos flavívirus, também integrada pela dengue. Pesquisadores já suspeitavam que poderia haver uma reação cruzada entre eles, mas os resultados de estudos até agora eram contraditórios.
Havia dúvida se a infecção por um poderia proteger contra os outros ou, ao contrário, agravar a doença. O novo estudo revelou que a ação é protetora. O trabalho foi coordenado por Jerson Lima Silva, Andrea Cheble Oliveira e Andre Gomes, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Estrutural e Bioimagem, e Herbert Guedes, do Instituto de Biofísica da UFRJ, e foi publicado em portal científico de um sistema de preprint, com os primeiros resultados.
— Os resultados são promissores e, como a vacina de febre amarela já é recomendada no país, a mensagem imediata é que as pessoas devem se vacinar porque não só evitam uma doença de elevada letalidade quanto ainda potencialmente pode ganhar proteção contra a zika — afirma Jerson Lima Silva.
Os cientistas ainda não sabem se o mesmo acontece com a dengue porque há quatro vírus que causam a doença e seus mecanismos ainda não são totalmente conhecidos. A vacina existente contra a dengue tem ação limitada.
O parentesco entre os vírus não era o único indício de que a vacina da febre amarela poderia evitar o zika. Chamou a atenção dos cientistas o fato de haver mais casos de microcefalia e da chamada síndrome da zika congênita no Nordeste onde a cobertura vacinal contra a febre amarela não chega a 5% na maioria dos estados. Além disso, observa Guedes, os casos de zika diminuíram depois que a epidemia de febre amarela emergiu em 2017 e foram iniciadas campanhas de vacinação no Sudeste.
Os cientistas estudam agora como a vacina da febre amarela protege contra o zika. Ela é feita com o vírus vivo atenuado. O risco de contrair a doença é muito baixo, de uma reação adversa para cada 400 mil doses aplicadas. Normalmente, as vacinas estimulam o organismos a produzir anticorpos. Mas esse não parece ser o caso contra o zika. Guedes explica que ela atua sobre um tipo de linfócito que produz substâncias chamadas citocinas, tóxicas para o zika.
O trabalho foi realizado com camundongos, que foram imunizados e depois infectados pelo zika. O cérebro dos animais vacinados apresentou baixíssima concentração de vírus e nenhum sinal da doença, em contraste daqueles não imunizados. Uma das características do zika é se alastrar pelo cérebro dos bebês infectados na gestação.
O estudo só foi possível graças à rede criada para combater as doenças do Aedes (zika, dengue e chicungunha) no país e foi financiado por recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Saúde, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Fonte: O Globo

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