
02/04/2019
Cansadas de esperar o poder público cumprir seu papel, elas resolveram colocar a mão na massa e dar um novo colorido ao cotidiano de seus bairros. Duas moradoras de Jacarepaguá e do Morro da Providência, no Centro do Rio, começaram a revitalizar, por conta própria, ruas, casas e praças, e agora já contam com um pequeno “exército” de voluntários, dispostos a arregaçar as mangas para dar cara nova aos espaços públicos.
Uma das idealizadoras dos mutirões é Aline Mendes, de 41 anos. Ela criou o projeto “Impacto das Cores” na Providência, motivada pelo “abandono do poder público à favela mesmo após o processo de revitalização da região portuária”. A ideia é limpar e embelezar locais abandonados. Crianças também participam das intervenções, e 90% do material usado vêm de doações. A escadaria principal, que leva à estação do teleférico, já ganhou versos de MPB. Depois, os degraus foram coloridos com uma bandeira do Brasil. Lixões ou bocas de fumo agora viraram playground.
— Já reformamos vários pontos da favela. Poucas doações que vêm em dinheiro são usadas na compra de lanches para os voluntários. Percebemos a diminuição da violência nos locais e o despertar de um valor de pertencimento e de autoestima entre os moradores. Além da educação ambiental e artística dos participantes — elogia Aline, cuja família está na Providência há mais de um século.
A moradora da favela ressalta ainda que o programa traz uma redução do descarte incorreto de sobras de tintas, então tem impacto ambiental importante. Neste ano, ela ainda terá apoio de um grupo de estudantes holandeses, que ganharam um prêmio no país europeu por lançar uma tinta sustentável.
— Vamos inaugurar nossa sede em abril e nosso próximo passo é pintar um painel na rua que leva ao cais do porto. Serão vários corações, cada um com uma palavra escrita por alunos de escolas da comunidade, dizendo o que sentem em relação à favela — conta Aline: — Toda ajuda com material de pintura e tintas é bem-vinda.
Na mesma onda de transformação, a contadora Alexandra Gonzalez criou o projeto “JPA, Eu te amo”, em Jacarepaguá. Entre as atividades culturais oferecidas, ela organiza mutirões de revitalização em ruas, praças e escolas, que recebem pintura e mobiliários feitos a partir de material reciclado. Pneus viram jardineiras, lixeiras e parquinhos. Empolgada com a iniciativa, ela organizou uma feira de empreendedores sustentáveis e exigiu a adesão ao projeto como contrapartida na participação no evento. Logo, criou um contingente de artesãos engajados em reformar o bairro.
— Nunca tive quem me ajudasse financeiramente. Já fui atrás de lojas, empresas, e não consegui. Mas a iniciativa cresceu tanto que eu comprei uma sede para cursos e eventos — diz a contadora: — Quanto mais degradado é o local, maior o índice de violência. Você tem um espaço que passa a ser de interação social, de lazer, isso tem um impacto enorme.
Alexandra conta que tem apoio da Superintendência de Jacarepaguá, que, segundo ela, disponibiliza a Comlurb para ajudar na limpeza. A produtora cultural está precisando de doações de materiais para pintura.
— Já revitalizei praças, como Cândido da Silva Mendes, a entrada do BRT na Taquara, criei praças onde não havia. O Parques e Jardins me dá mudas, a prefeitura tenta botar luz, sei que é difícil porque eles não têm recurso. Já paguei luz do meu bolso e eu mesma fiz a capina. A prioridade do governo é sempre Barra, Zona Sul. Mas eu não vou ficar parada porque o governo não faz. Não vou ficar só reclamando — ensina Alexandra.
Fonte: O Globo
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