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Ressaca encolhe faixa de areia da Praia de Copacabana

25/07/2019

A faixa de areia praticamente sumiu na altura do Posto 5 da Praia de Copacabana, um dos cartões-postais do Rio. A novidade na paisagem da cidade, vista nesta quarta-feira, é um dos efeitos colaterais da ressaca que atingiu o litoral do estado do Rio nos últimos dias. No lugar da faixa de areia, o banhista está se deparando com grandes pedras expostas, canos e vergalhões enferrujados para fora, além de lixo, gigogas e canos que saem da mureta dos quiosques direto para a água.
– Está assim desde ontem, quando a ressaca tirou a areia e deixou as pedras expostas. Não estou indo para lá. Está perigoso – afirmou o Walace Gonçalves, vendedor de biscoitos que trabalha na praia.
No local onde normalmente existe uma longa extensão de areia, fotos de hoje mostram apenas um pequeno espaço lotado de pedras separando o mar dos quiosques do calçadão, que costumam ficar distantes das ondas. Ontem, em Ipanema, a ressaca já tinha deixado aparente algumas pedras que estavam dentro da água – assim como trechos do emissário submarino.
– Há mais de 20 anos que eu não via uma ressaca tão violenta aqui em Copacabana. Já vi o mar bater lá em cima, no calçadão. Mas, desta vez foi uma semana com a ressaca muito forte – disse Oswaldo Oliveira, que trabalha como pescador e garimpeiro de ouro há 30 anos em Copacabana.
O engenheiro ambiental Maicon Victorino explica que, como diversos trechos da praia de Copacabana foram construídos na década de 1960, parte d oque está transparecendo após a ressaca é das fundações que foram utilizadas para se fazer o aterramento. Assim ,as grandes pedras que apareceram não foram arrastadas pelas ondas, mas são do próprio local.
– Provavelmente, pelo corte das pedras, elas foram de algum desmonte na construção do bairro. Copacabana não é uma praia natural, então, a gente tem que ver nas histórias da construção do bairro o que provavelmente eram os moles de saída de água que apareceram ali, por exemplo. Isso é comum até aqui em Arraial do Cabo. Quando o mar bate, ele desenterra um antigo banco de coral do passado – disse o engenheiro ambiental.
De acordo com o oceanógrafo David Zee, a direção de entrada das ondas explica os fenômenos verificados na orla carioca:
– As duas últimas ressacas aconteceram em época de lua nova, há 15 dias, e agora de 4 dias em lua cheia, épocas que tem as maiores marés astronômicas, causadas pelo sol e pela lua. Além disso, a entrada da frente fria causa outra elevação do nível do mar causada pelo vento que sopra do sul e empilha as águas do Rio – explicou o especialista. – O fator principal da erosão é que as ondas vieram de sul e sudeste, o que não é normal no inverno, quando elas entram de sudoeste. Assim, como a praia de Copacabana está em uma direção de nordeste a sudeste, as ondas que vêm dessa região provocam um estrago maior.
O ambientalista Abílio Fernandes faz uma analogia com a Lei de causa e efeito, do princípio de ação e reação de Isaac Newton.
– Toda ação corresponde a uma reação. Ao longo do litoral brasileiro, houve a retirada das dunas costeiras para construção de calçadões, bares, estradas e quadras esportivas. As consequências podem ser drásticas e condenam as nossas praias ao processo de erosão.
A paisagem impressionou até quem vive na área:
– Tem muitas pedras na praia realmente. A ressaca veio forte. Não vou nem pôr o pé no mar, que está com muita correnteza, cheio de bandeiras. Está tenso, vi vários resgates – relatou uma moradora de nome Marina que preferiu não se identificar.
Apesar do cenário diferente, a ressaca não atrapalhou turistas que pretendiam aproveitar a praia:
– A ressaca não impede de eu ir à praia. Não entro porque a água está fria – disse Iara da Silva Lucas, turista de Petrópolis que trouxe a amiga da Bélgica Nataly Marchand para conhecer Copacabana.

Fonte: O Globo

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