
05/09/2019
O aquecimento provocado pelas mudanças climáticas já é uma realidade quase rotineira para quem tem menos de 30 anos. Mas, para os estudiosos que se debruçam sobre os registros históricos das alterações, é comum o espanto diante de fatos que tornam inegáveis não só as transformações como os impactos que elas vêm causando, por exemplo, em produções agrícolas.
Um estudo publicado na sexta-feira (29) pela revista digital europeia “Climate of the Past”, por exemplo, conclui que os vinicultores franceses não passam por uma sucessão de clima quente e colheitas secas desde, pelo menos, a época da Peste Negra, pandemia que devastou a Eurasia, causando a morte de cerca de 200 milhões de pessoas no século XIV.
De acordo com o estudo, coordenado pelo cientista francês Thomas Labbé, as temperaturas mais altas das últimas três décadas anteciparam em cerca de 13 dias a colheita das uvas na Borgonha (rota das vinícolas), tomando como média o padrão de colheita de 664 anos atrás.
“Observando cerca de 300 relatórios meteorológicos documentais, os pesquisadores analisaram o lendário verão quente de 1540 que secou o rio Reno. Naquele ano, os trabalhadores colhiam uvas que pareciam ‘passas secas’ e ‘produziam um vinho doce semelhante ao xerez, que deixava as pessoas rapidamente bêbadas’", diz a reportagem que republicou o estudo no site Zerohedge.
A questão principal, que já está deixando os consumidores de vinho irritados, segundo reportagem sobre o assunto no “Wall Street Journal”, é que as altas temperaturas fazem com que as uvas amadureçam mais cedo, antes de ficarem completamente ácidas, o que é considerada uma parte crucial do sabor de qualquer vinho.
Na França, o calor extremo deste último verão provocou seca e, no verão passado, tempestades assustadoras atingiram as regiões vinícolas de Bordeaux, Cognac e Champagne.
Na Itália, o que aconteceu foi um verão de incêndios florestais, tempestades de granizo e outros eventos climáticos extremos destruíram os vinhedos.
A produtora de vinho Paola Del Casale, em entrevista ao WSJ, lamentou a chuva de granizo – “como nunca tinha visto na vida” - , que destruiu pelo menos metade da produção da temporada na vinícola de sua família ao longo da costa do Adriático. As videiras jovens terão que ser replantadas, pois foram danificadas.
“Vamos precisar esperar dois anos para que elas produzam uvas viáveis. É como se eu tivesse perdido este ano completamente”, disse ela.
Tanto a região de Toscana como a de Bordéus dependem há muito de um verão sereno para produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo e, até três décadas atrás, tais condições confiáveis permitiram aos produtores serem respeitados em seus códigos rigorosos sobre onde e como produzir um vinho de alta qualidade. As mudanças climáticas, no entanto, estão forçando um rompimento com as tradições.
A matéria pode ser lida no G1
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