
12/09/2019
Cientistas brasileiros identificaram, pela primeira vez, um fator ambiental que intensificou os efeitos da infecção pela zika no cérebro humano, como a microcefalia. O estudo aponta que uma cianobactéria, presente na água, é um destes cofatores que aceleraram o processo de morte de células cerebrais. Isso ajuda a explicar o motivo pelo qual o Nordeste concentrou a maioria dos casos da malformação ligados ao vírus: a região tem a maior incidência da toxina liberada pela bactéria, a saxitoxina, em reservatórios.
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D´or de Pesquisa e Ensino (IDOR) concluíram que a população que consumiu água com saxitoxina e foi infectada pela zika pode ter sofrido maiores complicações neurais da doença. O estudo ocorreu em parceira com a Fiocruz e a Universidade Federal Rural de Pernambuco.
Entre 2015 e 2018, o Nordeste concentrou 88,4% dos casos de microcefalia, doença que causa uma malformação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada, analisou o Laboratório Nacional de Células Tronco (Lance), do IDOR. No mesmo período, por outro lado, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), a região era a terceira em número de casos reportados de zika. Diante disso, um dos focos da pesquisa foram as mulheres grávidas, e percebeu-se que a combinação da toxina e do vírus acelera a degeneração das células do cérebro.
A saxitoxina é considerada um fator ambiental evitável, já que melhores condições de saneamento básico e de tratamento de água nos reservatórios poderiam minimizar o problema.
Entre 2012 e 2016, o Nordeste passou por sua pior seca. Com menos água nos reservatórios, o processo de eutrofização — maior crescimento de plantas aquáticas, onde a cianobactéria se encontra — se intensificou. Este fator e o baixo tratamento de esgoto em diversas áreas da região auxiliam na proliferação dessas bactérias.
— Uma das formas de combate é a redução de desigualdade social. A falta de acesso a água potável e ao saneamento básico deixam uma parte da população mais suscetível a uma série de doenças — pontua o professor Stevens Rehen, coordenador do grupo de pesquisa.
Um agravente na prevenção é que filtrar ou ferver a água não matam as cianobactérias, resistentes a altas temperaturas.
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