
17/12/2019
O ano de 2020 é provavelmente o momento crucial para o planeta no combate ao aquecimento global. É nele que os países devem definir como (e se) suas metas de corte de CO2 serão ampliadas, para apresentação na COP-26, em Glasgow. E a ciência do clima aponta que o próximo ano é o prazo limite para as emissões de gases do efeito estufa começarem a cair.
Para entender como o planeta vai reagir à interferência humana, cientistas têm usado quatro diferentes cenários de simulação do futuro, encomendados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU.
Conhecidos no meio acadêmico por siglas (RCP2.6, RCP4.5, RCP6.0 e RCP8.5), eles podem ser descritos apenas como "regular", "ruim", "péssimo" e "catastrófico".
Por "regular" os cientistas consideram um cenário que impeça o mundo de ganhar mais que 2°C em temperatura média.
O cenário que era considerado "bom", capaz de manter o acréscimo de temperatura global abaixo de 1,5°C, já é praticamente inviável, porque requer um corte próximo a 50% em dez anos e o emprego maciço de tecnologias para absorver CO2 na segunda metade do século, não apenas um freio na emissão.
O desafio em questão é que o Acordo de Paris para redução de emissões, mesmo tendo sido um marco diplomático, ainda é insuficiente para que o planeta fique abaixo da marca de +2°C até 2100.
Exceder esse limite significa, por exemplo, um aumento global de 40% em chuvas torrenciais, o dobro de impacto na produtividade de alguns cultivares e 25% mais de aumento no nível do mar, comparado ao um aquecimento de 1,5°C.
Em um regime de emissões limitado apenas pelos compromissos assumidos em Paris, o planeta aumentaria a sua produção anual de gases estufa de 36 para 39 gigatoneladas de CO2, e ficaria nesse patamar. Os cortes de longo prazo, porém, ainda não foram definidos e, com os Estados Unidos deixando o acordo, a perspectiva é sombria.
— Não há a menor duvida que estamos indo além do RCP8.5, ou seja, estamos indo além do pior cenário desenhado pelo IPCC — afirma o físico Paulo Artaxo, climatologista brasileiro que integra corpo de cientistas planejando o próximo relatório do painel do clima. — O planeta está indo, agora, na direção de um aquecimento da ordem de 4°C a 5°C em média.
Apesar de o cenário "catastrófico" não estar perfeitamente alinhado com a curva de emissões do início deste século, a tendência de aumento é claramente alinhada com a visão mais pessimista.
Se o planeta realmente continuar na trajetória do cenário RCP8.5, as temperaturas em áreas continentais se aqueceriam ainda mais do que a média da superfície terrestre, subindo de 5°C a 6°C. Isso significaria perdas ampliadas para produção de alimentos. O nível do mar subiria uma média de 63 centímetros, ou 56% mais que no cenário "razoável".
Para que o planeta entre no cenário "razoável" e segure o aquecimento em 2°C, seria preciso cortar emissões em cerca de 7% ao ano e chegar a 2050 com 80% menos emissões do que hoje.
No ano passado, porém, foi registrado um aumento de 2%, e neste ano deve ocorrer novo aumento, de 0,5%.
A tendência começa a fazer o IPCC repensar a maneira como projeta o futuro.
— O próximo relatório de avaliação do IPCC, que fica pronto em 2010, vai manter os cenários atuais, porque os modelos [simulações] ja estão sendo rodados — conta Artaxo. — Se outras circunstâncias aparecerem, posteriormente devem ser desenhados novos cenários.
Segundo o climatologista, a principal colaboração do próximo relatório não deve mais ser na compreensão da mitigação do aquecimento global (o corte de emissões), mas sim na adaptação ao futuro sombrio, sobretudo se o planeta não sinalizar uma queda nas emissões em 2020.
— Continuar no cenário em que estamos agora, tanto de desmatamento quanto de emissão de combustíveis fósseis, é uma trajetória suicida para a humanidade — diz Artaxo.
Fonte: O Globo
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