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Comunidade ao lado do Guandu joga dejetos na lagoa de captação de água da Cedae

21/01/2020

Os 1.200 moradores do bairro da Lagoinha, em Nova Iguaçu, vivem a poucos metros da Estação de Tratamento de Água do Guandu, a maior do país e responsável pelo abastecimento de nove milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio. Mas um abismo os separa do saneamento básico. Alguns sequer têm água encanada. E, apesar de a comunidade ficar tão perto da mais importante unidade da Cedae, todo o esgoto produzido ali é despejado in natura na lagoa artificial de onde a estatal capta a água que, após tratamento, será distribuída para a população.
— A Cedae não nos dá suporte algum. Só apareceu aqui quando realizou desapropriações para as obras de ampliação do Guandu — diz Renato Luiz, presidente da Associação de Moradores da região, em referência às cerca de cem casas demolidas nos últimos anos no âmbito do projeto de duplicação da estação de tratamento, que vai custar R$ 3,4 bilhões e deve começar este ano, segundo a companhia estadual.
Invisíveis ao poder público, muitos moradores acompanham da janela de casa a deterioração da Lagoa do Guandu, que eles costumam chamar uma parte de “lagoinha” e outra de “lagoão”, formadas majoritariamente pelo Rio Guandu. A porção menor, onde deságuam os extremamente poluídos rios Queimados e Ipiranga, é considerada praticamente morta pelos pescadores da região. Mas, na fração maior, eles ainda conseguem encontrar peixes e tirar o alimento da família — pelo menos por enquanto, porque está a cada dia mais suja.
É nela que desemboca o degradado Rio Poços, cuja foz ficava próxima à captação da Cedae. Nos últimos anos, porém, o assoreamento tem feito com que ele extravase num trecho anterior do lagoão, espalhando sua podridão.
— Com o Poços assoreado, agora a poluição transborda para os lados, entrando no lagoão — explica o pescador Yago Vinicius dos Santos. — Nós ainda conseguimos pescar bastante aqui, principalmente tilápia, cará e traíra. Mas já foi muito melhor. Nosso medo é que um dia o pouco que tem acabe.
Numa tentativa de salvar sua fonte de sustento, ele foi um dos responsáveis por mobilizar os 43 pescadores da comunidade, em outubro do ano passado, para bloquear o ponto de vazamento do Rio dos Poços. Eles montaram uma barreira com galhos e troncos. Sabiam que não seria uma solução definitiva, mas uma tentativa de recuperação de um pequeno trecho tomado pelo esgoto. Após uma semana de trabalho, a poluição venceu, e os pescadores desistiram.
Nesse cenário de piora, na última semana os pescadores perceberam ali o aparecimento de placas de esgoto com uma cor azulada.
— Nunca vimos isso antes — diz o pescador Edson Monteiro, que lembra outros possíveis efeitos recentes da poluição na bacia. — Há três anos, todas as capivaras que viviam numa fazenda na beira do Rio dos Poços morreram.
Somente Nova Iguaçu e Queimados despejam diariamente 56 milhões de litros de esgoto in natura nos rios Poços, Queimados e Ipiranga. Os moradores da Lagoinha contribuem para essa poluição. Apesar de a Cedae afirmar que a parte formal da comunidade tem rede regular, com exceção das ocupações ilegais, o presidente da associação local desconhece qualquer tratamento de dejetos.
Com décadas de descaso no saneamento, a água tem chegado cada vez mais suja à Estação do Guandu, dificultando o tratamento. Desde a virada do ano, consumidores do Rio e da Baixada começaram a perceber que a água estava saindo da torneira escura, com cheiro forte e gosto de terra. Dias depois, a Cedae atribui o problema à geosmina, substância orgânica produzida por algas que proliferam ainda mais na presença de esgoto.
Procurada, a Cedae informou que tem projetos para investir mais de R$ 5 bilhões em obras de saneamento no estado, valor que pode aumentar com a concessão da empresa.

Fonte: O Globo

Veja um infográfico sobre o caminho da água clicando aqui

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