
06/02/2020
Tão logo surgiram as primeiras notícias ligando o surto de coronavírus ao consumo de carne de animais, a organização mundial Pessoas para o Tratamento Ético dos Animais (Peta na sigla em inglês) fez, em seu site, uma única e contundente sugestão para acabar com o problema: torne-se vegano!. Faz sentido. Segundo informações colhidas pela organização, o vírus que está atemorizando a população mundial, rotulado como 2019-nCoV, é semelhante a outros coronavírus, como o da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). E os três se espalharam de animais para humanos. A solução, então, de não consumir mais carnes de animais, é até óbvia, não fossem as dramáticas consequências econômicas que poderiam vir no bojo.
Fato é que grande parte do comércio internacional se estruturou sobre a importação e exportação de carnes (o Brasil é o maior do mundo). E, como é mais dispendioso manter caminhões ou contêineres frigoríficos, a solução cada vez mais usada é transportar os animais vivos e abatê-los no solo onde serão consumidos. Há também questões culturais, já que o Oriente Médio precisa inspecionar o abate.
Aqui vale um momento de reflexão, já que não posso deixar de sentir uma imensa comiseração por bichos transportados, quase sempre, em péssimas condições, sem nenhuma preocupação com o bem-estar deles. Quando o lucro está em jogo, ele sempre fala mais alto, e é até risível, para muitos dos que se ocupam desse transporte, gastar tempo pensando em garantir uma viagem mais cômoda para os animais. Mesmo considerando que eles serão mortos para alimentar os humanos.
Feito o parêntesis, vale dizer também que outro fato procedente é que, mesmo com toda propaganda que tem sido feita nas últimas décadas em prol de uma alimentação vegana, o consumo de carne não diminuiu globalmente. Ao contrário. Reportagem publicada há um ano pela BBC e reproduzida aqui no G1 diz que “O consumo de carne no mundo aumentou rapidamente nos últimos 50 anos, e sua produção hoje é quase cinco vezes maior do que no início dos anos 1960 - de 70 milhões de toneladas, passou para mais de 330 milhões em 2017”.
É claro que precisamos levar em conta que aumentou também o número de pessoas no mundo. Em 1980 éramos cerca de 4,5 bilhões, e hoje somos 7,6 bilhões. Mas aqui no Brasil há uma cultura, quase inabalável, e a crença de que se a pessoa não consumir proteína animal (carne vermelha, de preferência), não está se alimentando bem, de maneira saudável. No entanto, como se sabe, não são todos que podem pagar o preço desta crença: quanto mais ricos os países, mais carne é consumida. E a proporção inversa é real.
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