
13/02/2020
Conhecida pela tradição de seus vinhos, que estão entre os mais prestigiados e caros do mundo, Bordeaux já sente os efeitos das mudanças climáticas e acena com alterações em seu tradicional corte (a composição das uvas de um vinho). A segunda maior região produtora de vinho da França estuda ampliar o número de castas que são permitidas dentro das Apelações de Origem Controlada (AOC). Serão mais quatro uvas tintas e três brancas.
Embaixador da região no Brasil, o presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) Rio, Joseph Morgan, diz que Bordeaux é uma referência quando se fala em vinhos tintos de guarda:
— Apesar de os Grand Crus Classés representarem apenas uma pequena parcela da produção total, eles influenciam na percepção de qualidade do consumidor para todos os demais níveis, mesmo para as AOCs mais simples e baratas.
Morgan explica que a maioria das AOCs de Bordeaux foi estabelecida em 1936, logo após a criação do Instituto Nacional de Denominação de Origem (Inao). O objetivo maior de uma AOC é preservar a tipicidade. Daí a importância de se manter um controle sobre as castas autorizadas. Bordeaux produz 89% de vinhos tintos. Muitas AOCs só produzem tintos, como é o caso de todo o Médoc, Pomerol e Lalande de Pomerol, Fronsac e Canon Fronsac e as AOCs de Saint-Émilion e satélites.
— São vinhos equilibrados, elegantes, não muito encorpados, mas com uma capacidade de guarda muito boa. Aromas de frutas vermelhas, ameixa, especiarias e aqueles aportados pela maturação em barricas de carvalho. Muitos vinhos passam pelo menos um ano em barrica, e os grand vins de um château passam até 20 meses.
Para o Conselho de Vinho de Bordeaux, embora os efeitos ainda estejam atualmente favoráveis à qualidade dos vinhos da região, a perspectiva de ver a temperatura subir um ou dois graus terá um impacto substancial nos rótulos produzidos.
Viticultores dessa região do Sudoeste da França já perceberam três alterações: aumento da temperatura média com um efeito pronunciado e contínuo na colheita; ciclo mais curto de cultivo de videira; e o amadurecimento e colheita antecipados em cerca de 20 dias nos últimos 30 anos.
O agroclimatologista Eduardo Assad ressalta que os efeitos das mudanças climáticas são mais sentidos em áreas com estações do ano mais definidas, como é o caso de Bordeaux.
— O primeiro impacto é que a planta vai ter menos tempo para assimilar a água, e aí você vai ter problema na produção. E há um impacto fortíssimo na redução do tempo de colheita. Isso traz consequências de logística impressionantes para aqueles países que tiveram durante anos aquele clima bonitinho. Um inverno muito forte, um verão muito forte. E, de repente, você reduz isso em um mês. Num país tropical como o Brasil, não faz uma diferença muito grande. Aqui você tem estação chuvosa e estação seca de São Paulo para cima — explica Assad, que é que é pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária.
O diretor de produção da Maison Bouey, de Médoc, Pierre-Olivier Larrieu, revela que os produtores de Bordeaux assistem à queda do rendimento dos vinhedos em razão do clima:
— Vemos o clima alterado no cotidiano, mas é na agricultura que isso é mais constatado. Acidentes climáticos como seca, geada, granizo, episódios intensos de chuva e tempestades são mais frequentes e fora das estações habituais. E são cada vez mais preocupantes porque reduzem o rendimento por hectare e enfraquecem a saúde econômica das empresas. O custo de produção aumenta e é cada vez mais difícil estabilizar a lucratividade.
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