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Lições que se aprende com o fracasso de Kyoto e outros tratados do clima

20/02/2020

“Uma ponte só se torna uma ponte quando liga as duas margens de um rio. Tem sentido falar em 10% de uma ponte?”
O pensamento acima é de Ignacy Sachs, ecossocioeconomista polonês que morou no Brasil e hoje é professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris. E eu o tirei do livro “A Terceira Margem – em busca do Ecodesenvolvimento” (Ed. Companhia das Letras), onde busquei ajuda para refletir sobre os 15 anos do Protocolo de Kyoto, comemorados ontem. Sachs esteve presente, como membro efetivo, de todas as primeiras delicadas reuniões de cúpula convocadas pela ONU para debater sobre as mudanças necessárias para se enfrentar o aquecimento global.
Que não deu certo o tratado de Kyoto, está claro. Seria um acordo em que ambas as margens (para usar a expressão de Sachs) do rio estariam irmanadas no propósito de não deixar a ponte cair. Baixar as emissões de gases do efeito estufa para que o planeta continue acolhendo a vida humana não é, como se sabe hoje, uma meta aceita democraticamente por todos os países.
As controvérsias foram sendo criadas a partir de premissas que não existem, na realidade. São proposições feitas por líderes nacionalistas, que imaginam uma perseguição implacável contra o “desenvolvimento” (sim, entre aspas) por um exército de cientistas que estariam formulando pesquisas falsas com o objetivo de aniquilar as nações. É, como diz Sachs, um “sim incondicional à economia de mercado”. Deixamos de lado, por vezes, nossa ética, em função do consumo de coisas que, somente em tese, nos dariam mais prazer. E há o acúmulo de capital, tão somente, o que cria um fosse de desigualdade social jamais visto.
Fazer contato com outros valores é a proposta que me parece mais alinhada ao cenário que, há 15 anos, na assinatura de Kyoto (os Estados Unidos se retiraram do acordo em 2011), os países imaginaram. Diante dos acontecimentos recorrentes, trágicos, de incêndios, secas e tempestades que, segundo as Nações Unidas, “entre 2030 e 2050 causarão 250 mil mortes adicionais por ano, por desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico”, é impossível não se sentir minimamente contagiado a realizar mudanças.
“Não é possível um colapso ambiental desvinculado de um colapso social”, escreve Luiz Marques em seu “Capitalismo e colapso ambiental” (Ed. Unicamp).
Christiana Figueres e Tom Rivett-Carnac, ambos diplomatas, são considerados arquitetos das reuniões globais do clima convocadas pela ONU. Ela é antropóloga e foi Secretária Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2010 a 2016. Os dois acabam de lançar um livro, ainda sem tradução no Brasil, chamado “The Future we Choose” (“O Futuro que Escolhemos”, em tradução livre), onde descrevem dois cenários bem distintos.
No primeiro deles, pessimista, imaginam tudo o que pode acontecer caso não se consiga um acordo para baixar as emissões de carbono.
“A primeira coisa que mudará é o ar. Em muitos lugares do mundo o ar se tornou quente, pesado e, dependendo do dia, obstruído pela poluição por partículas. Seus olhos costumam lacrimejar e você passa a ser vítima de uma tosse constante, que nunca vai embora. Você pensa em alguns países da Ásia onde, por consideração, as pessoas doentes costumavam usar máscaras brancas para proteger outras contra infecções transmitidas pelo ar. Agora você costuma usar uma máscara para se proteger da poluição do ar. Não há mais ar fresco. Em vez disso, antes de abrir portas ou janelas pela manhã, será conveniente verificar, no telefone, qual será a qualidade do ar”.

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