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Coronavírus: entenda por que cientistas vêm questionando os números da China

05/03/2020

O estudo da evolução da epidemia do novo coronavírus na China é essencial para cientistas tentarem prever como o patógeno vai se comportar nos outros países onde está se instalando. Muitos cientistas questionam, porém, se os números chineses são confiáveis.
A principal dúvida sobre as estatísticas do país é relacionada à chamada subnotificação, ou seja, o número potencial de casos não notificados. O problema não implica necessariamente uma tentativa de esconder os casos da Covid-19, nome oficial da enfermidade, mas diz respeito à capacidade de estimar ocorrências da doença que escapam da vigilância epidemiológica do país.
A suspeita começou a emergir ainda em janeiro, quando cientistas usaram números chineses em modelos matemáticos que simulam a evolução da epidemia. Para especialistas como Marta Galanti, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, a evolução do surto na China não faz sentido se não for considerada alta subnotificação.
“A velocidade e a extensão geográfica do deslocamento da epidemia pela China e exterior são provavelmente relacionadas à verdadeira prevalência do patógeno, e sugerem que haja muito mais infecções”, escreve a pesquisadora em estudo preliminar depositado no site medRxiv. “Em outras palavras: a taxa de notificação é baixa.”
No final de janeiro, um estudo da Escola Médica da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, tentou ajustar uma simulação da epidemia aos dados da China. A conclusão foi a de que, nos primeiros dias do surto, na cidade de Wuhan, epicentro da crise, apenas 5% das infecções estavam sendo notificadas.
Muitos dos casos não estariam chegando às autoridades por serem assintomáticos (sem sintomas) ou resultarem em quadro leve, que não leva o paciente a procurar tratamento.
Estimar o número real de pacientes infectados é crucial para entender a gravidade e a taxa de letalidade da doença (a quantidade de mortes por caso registrado).
Em 20 de fevereiro, a taxa de letalidade na China era de 3,8%, em média —bastante alta. Mas ela abriga uma variação que ia de 5,8% em Wuhan a 0,7% em outros lugares do país — sugestão forte de que a cidade originária falhou em diagnosticar muitos casos.
A missão de cientistas que visitou a China a pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS), porém, minimiza a preocupação. Em relatório, o grupo diz que a China coleta anualmente amostras de pessoas não sintomáticas como parte do sistema de vigilância para gripe e doenças respiratórias. Essas amostras, neste ano, foram testadas também para Covid-19, e não sugerem alta subnotificação.
“Em Wuhan, os testes de amostras coletadas (20 por semana) não tiveram nenhum resultado positivo em novembro e dezembro, e quatro adultos deram positivo nas duas primeiras semanas de janeiro”, diz o relatório produzido na missão.
No Brasil, a comunidade médica está atenta, porque o cenário na China é pista sobre como a doença pode evoluir no Brasil. Alguns desconfiam dos números.
— Ocorreu um período de quase um mês de quarentena numa região da China, com transporte fechado, escolas fechadas, numa população de 40 a 50 milhões de pessoas — diz Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz. — Dá para imaginar quantas pessoas infectadas desenvolveram quadro limitado e não foram à unidade de saúde. Eu não vejo elementos que me convençam de que essa letalidade seja de 2%, 3% ou mais. Eu acho que é infinitamente menor.
Nancy Bellei, virologista da Unifesp, diz não crer em grande subnotificação, e afirma que a letalidade em Wuhan pode ser fruto da sobrecarga no sistema de saúde.
— No Brasil, eu não me surpreenderia se a taxa de letalidade for até mais alta. — diz Nancy. — Ainda não sabemos se nosso sistema está preparado para atender e mandar para casa esses pacientes, e manter controle sobre os contatos deles.

Fonte: O Globo

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