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Desmatamento e mudanças do clima agravam risco de seca severa na Amazônia e no Cerrado

08/02/2022

Mudanças drásticas no uso do solo para a expansão do agronegócio, aliadas aos efeitos das mudanças climáticas na zona de transição entre o leste da Amazônia e o Cerrado, podem estar induzido à um agravamento das condições da seca severa no país.
Com a exploração desordenada, a estabilidade dos biomas pode estar sendo colocada em risco e, consequentemente, também a produção dos alimentos na nova fronteira agrícola brasileira. Trata-se da chamada região do "Matopiba", que compreende Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, responsável por quase 12% da produção da soja, principal commodity de ração animal produzida pelo Brasil.
É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O artigo foi publicado na revista "Scientific Reports".
"Os resultados evidenciam um aumento na temperatura, déficit de pressão de vapor, frequência de dias secos e diminuição na precipitação, umidade e evaporação. Também apontam um atraso no início da estação chuvosa, o que aumenta o risco de incêndio durante a estação de transição seca para úmida. Esses processos podem se tornar mais intensos no futuro", explica José Marengo, coordenador-geral de pesquisa do Cemaden e primeiro autor do estudo.
"Se nada for feito, a produção agrícola vai cair porque é fortemente dependente do clima", afirma o pesquisador. O trabalho teve a participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e das universidades de Valência, na Espanha, e de Grenoble, na França.
Os cientistas usaram uma combinação de dados meteorológicos e de satélites para analisar mudanças nas variáveis hidrológicas e climáticas na América do Sul tropical durante as últimas quatro décadas. As regiões que sofreram aquecimento de longo prazo ou apresentaram tendência de seca no período de 1981 a 2020 foram identificadas por meio da análise de padrões espaciais para diferentes variáveis radiativas, atmosféricas e hidrológicas.
"Esses achados fornecem evidências observacionais da pressão climática crescente nessa área [Matopiba], que é sensível para a segurança alimentar global, e a necessidade de conciliar a expansão agrícola e a proteção dos biomas tropicais naturais", avalia Marengo.
O raciocínio, segundo os cientistas, é simples. Se não houver reflorestamento, não é possível manter a produção, porque, a longo prazo, a colheita não se sustenta. Logo, a pecuária também não. Com o aumento das temperaturas máximas, que já está acontecendo, toda a região pode ficar inviável.
Segundo o climatologista Carlos Nobre, os estudos apontam justamente uma queda na produtividade na última década: "se não tivermos sucesso no Acordo de Paris, e a temperatura subir 3 graus, o Brasil vai perder a qualidade de um grande produtor agrícola, principalmente no chamado ´arco do desmatamento´, que vai se transformar em um local muito quente".
Para o pesquisador, o que os estudos apontam não é o futuro, é o presente, que já está acontecendo. Apesar de a população, em geral, compreender a importância do meio ambiente, ele acredita que seja preciso trabalhar ainda a questão ambiental justamente com os produtores rurais.
"Quando são feitas pesquisas de opinião, o Brasil sempre está sempre entre os 3 países que mais acreditam nas mudanças climáticas, mas alguns produtores recebem visitas dos negacionistas, há todo um discurso por trás disso", disse Nobre.
"É como se diminuíssem o risco da atividade deles, de diminuir a produção por falta de sustentabilidade, mas os estudos publicados recentemente mostram a queda na produção da soja e do milho, tanto na região do Matopiba quanto na transição do Mato Grosso, portanto, nós já estamos vendo as mudanças climáticas por aqui", complementou o pesquisador.
Em 2015, o governo brasileiro declarou o Matopiba como a "última fronteira agrícola" do país. A expansão do agronegócio e, principalmente, das monoculturas de soja, teve início a partir da década de 1980 e se acelerou no início dos anos 2000. Entre 2003 e 2013, saltou de 1,2 milhão para 2,5 milhões de hectares. E detalhe: aproximadamente 74% dessas novas terras agrícolas estavam no Cerrado, em áreas até então intactas.

A matéria na íntegra pode ser lida no g1

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