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Sistemas Agroflorestais: um caminho para a regeneração da Terra

25/10/2022

Houve um tempo em que se dizia que, para recuperar um pasto degradado ou um solo empobrecido pelo uso intensivo de agrotóxicos, bastava deixá-lo quieto por alguns anos. A natureza, sem qualquer intervenção humana, cuidaria da regeneração daquela área. No seu ritmo, no seu tempo.
É bem verdade – e muito lindo de perceber – que a vida brota da terra. Que muitos animais são polinizadores e que há uma rede natural de cooperação biológica formidável para que o equilíbrio se restabeleça sempre.
Mas o problema é que a humanidade chegou em um ponto tão brutal de interferências maléficas nos mais diversos ecossistemas que minimizar impactos não é mais suficiente. É preciso correr no tempo (mas não contra o tempo). E dar uma mãozinha ou muitas a este que talvez seja o trabalho mais importante do presente e do futuro da humanidade. Regenerar a vida no planeta.
Pois é aí que entram as agroflorestas ou sistemas agroflorestais (SAFs). Elas têm potencial para serem grandes aliadas nessa tarefa. O conceito ganhou repercussão no Brasil a partir do trabalho do agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch.
Em mais de 40 anos de experiência no país, ele desenvolveu um conjunto de técnicas capazes de reintegrar a produção agrícola com a regeneração da paisagem, especialmente a florestal. Ensinou a cultivar comida sob a copa de grandes árvores perenes, igualmente inseridas por mãos humanas.
Sua fazenda na Bahia, onde vive com a família desde 1984, é exemplo vivo disso. Por lá ele recuperou 410 hectares de solo degradado, viu ressurgir mais de uma dezena de nascentes e celebrou o reaparecimento de diversas espécies da fauna nativa. Suas lições já foram compartilhadas com mais de 8 mil famílias brasileiras que tiveram contato com seus cursos e palestras.
“O conceito de agroflorestas é muito amplo, existem diferentes possibilidades dentro dele. Na Europa, por exemplo, ele vem da definição criada pelo ICRAF, o World Agroforestry Center, que abarca muitas versões, digamos assim. Algumas permitem simplesmente uma rotação de cultura entre um ano e outro, usando ou não insumos químicos”, afirma o jornalista Felipe Pasini. Felipe é um dos pioneiros na divulgação dos trabalhos de Götsch, que acompanha de perto há 15 anos. Além disso, é produtor em sua fazenda no Rio de Janeiro, que ainda sedia o Centro de Formação em Agricultura Sintrópica.
Segundo ele, na América Latina e também no Brasil, o termo agrofloresta ganhou um tom diferente, muito em função do trabalho de Ernst com frentes campesinas e cooperativas de pequenos produtores. “Essas diferenças de conceito levaram seus alunos e o meio acadêmico a criar o nome ‘agrofloresta sucessional’ para diferenciar do trabalho feito em outras agroflorestas, já que era algo tão específico. Mais tarde, em 2013, o próprio Ernst resolveu rebatizar de agricultura sintrópica, um termo que ele já usava desde a década de 1990”, conta Pasini.
Logo depois, em 2016, a agricultura sintrópica ganhou um impulso importante em 2016 a telenovela Velho Chico, transmitida pela Rede Globo. Com consultoria técnica de Felipe Pasini e sua parceira Dayana Andrade, o tema foi inserido nos conflitos da trama e conquistou uma expansão incrível.
Nas palavras de Ernst, em todo lugar onde há vida ela cria, com o passar do tempo, um saldo positivo de energia e complexidade. É um saldo sintrópico, contrário à ideia de entropia da Termodinâmica, que representa a degradação de energia e a desordem de um dado sistema.
“A agricultura que denominei de sintrópica trabalha com esses princípios da vida, submetidos à própria vida, em todas as relações entre as espécies e intraespecíficas, baseadas no amor incondicional e na cooperação. Todas as espécies são equipadas para se comunicar com todas as outras. E todos os indivíduos e cada geração deles, para cumprir suas funções, são movidos pelo próprio prazer interno, e todos eles formando um grande macro-organismo”, diz Ernst Götsch.
Este e outros ensinamentos estão disponíveis em vídeos e conteúdos do site Agenda Götsch, idealizado por Dayana Andrade, comunicadora e doutora em Ciências Ambientais e Conservação pela UFRJ, com tese defendida sobre a adotabilidade da agricultura sintrópica.
Para Ernst, então, não se trata de uma receita de como fazer agricultura em um determinado lugar. É um modo de pensar, uma filosofia, um conjunto de princípios que, traduzidos na prática, nos levam à agricultura sintrópica. Assim, não importa se estamos nos trópicos, no Mediterrâneo ou em lugares áridos. Os princípios são os mesmos.

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