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Garimpo ilegal ameaça saúde humana e meio ambiente

25/10/2022

O filme Amazônia, a nova Minamata? estreia em outubro no Brasil e revela a realidade assustadora do território Munduruku, na região da cidade de Jacareacanga, Pará. As altas taxas de mercúrio no sangue da população gera problemas neurológicos irreversíveis em adultos, idosos e crianças – fato que explica a alta demanda por cadeiras de rodas infantis por lá.
Um trecho do documentário de Jorge Bodanzky mostra Alessandra Munduruku, em manifestação no Congresso Nacional, afirmando que “as pessoas têm que saber o que está acontecendo e é por isso que a gente não para de lutar. Vocês estão matando os nossos filhos”.
O mercúrio que vem do garimpo de ouro no Rio Tapajós provoca uma doença chamada de Minamata, nome dado em referência a uma cidade de pescadores no Japão, onde a contaminação por mercúrio também levou a população a enfrentar os mesmos sintomas que afetam a saúde dos povos indígenas hoje. No Japão, o mercúrio foi despejado por uma fábrica de plástico. No Brasil, a origem é principalmente o garimpo ilegal.
“Todos nós já sabemos da questão da contaminação do mercúrio na bacia amazônica, mas eu não fazia a menor ideia da dimensão e do desastre irreversível que é. O mercúrio ataca o sistema neurológico, também passa pela placenta e os bebês já nascem com alto índice de contaminação. O mercúrio a gente não vê, não cheira. Ele também demora a aparecer. Às vezes a pessoa mora há 30 anos no local, está contaminada, mas isso não é visível”, disse Bodanzky.
A fala do diretor é confirmada pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) no documento “Contaminação por mercúrio – Por que precisamos de um plano de ação?”, publicado no dia 11 de outubro de 2022.
Os cientistas explicam que o mercúrio é tóxico por conta de sua alta afinidade com compostos de enxofre presentes em proteínas e em muitas enzimas essenciais para o metabolismo das células humanas. Quando o metal se liga a enzimas e outras proteínas, elas são inativadas de forma irreversível, o que pode gerar graves complicações clínicas, como vertigens, tremores e danos aos pulmões e ao cérebro.
O estudo faz um diagnóstico das emissões do metal no país e lista oito recomendações para lidar com esse desafio, iniciando um debate sobre a gestão do metal no Brasil. Para a ABC, o combate à contaminação por mercúrio deve ser encarado como um desafio nacional que deve mobilizar todos os níveis governamentais, o setor privado e as organizações sociais.
“A contaminação por Mercúrio representa uma grave ameaça a todo o ecossistema do nosso país, de Norte a Sul e de Leste a Oeste”, alerta o professor Jailson Bittencourt de Andrade, vice-presidente da ABC e coordenador do estudo.
O Grupo de Trabalho que realizou o estudo aponta que, apesar de várias localidades brasileiras serem afetadas pela contaminação, o mercúrio está fortemente associado ao garimpo ilegal e ao uso do metal para extração do ouro. É a atividade que mais contribui para as emissões de mercúrio no país.
A técnica usada particularmente na extração ilegal faz com que o ouro e o mercúrio se fundam em um amálgama, para que o metal precioso possa ser extraído de rochas e areia. Depois, o amálgama é aquecido, fazendo o mercúrio evaporar e passar a circular na atmosfera.
No documento, a ABC expressa sua preocupação com o garimpo realizado em Terras indígenas, o que é proibido pela Constituição.
“O mercúrio é um legado da irresponsabilidade no trato do meio ambiente que vai ainda assombrar a humanidade por gerações”, ressalta Luiz Drude de Lacerda, Membro Titular da ABC e integrante do Grupo de Trabalho.
O grupo observa, no entanto, que muitos problemas de contaminação ambiental por mercúrio são devidos não apenas ao aumento das emissões, mas também à tendência de maior concentração do metal em peixes, humanos e outros organismos, observada ao longo dos últimos 20 anos. O fenômeno é atribuído à alteração do uso do solo, particularmente na conversão de florestas para extração de madeira e para a agropecuária.

A matéria completa pode ser lida no Ciclo Vivo

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