
08/11/2022
Mesmo que se consiga substituir os combustíveis fósseis por fontes renováveis, será praticamente impossível zerar as emissões de carbono até 2050 sem proteger as florestas tropicais, principalmente a Amazônia, pois são elas que detêm o maior estoque de CO2 do planeta.
O alerta foi feito pelo cientista Paulo Artaxo, professor do IF-USP (Instituto de Física da Universidade de São Paulo) e autor-líder de um capítulo do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre IPCC (Mudanças Climáticas), em palestra apresentada no dia 27 de outubro, durante a conferência anual do RCGI (Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa).
O RCGI é um centro de pesquisa em engenharia constituído por Fapesp e Shell na USP (Universidade de São Paulo).
Artaxo é um dos mais influentes pesquisadores do mundo na área de meio ambiente e mudanças climáticas e está a caminho do Egito, onde participará da COP27 (27ª Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), que teve início neste domingo (6).
Segundo ele, vários estudos, de diferentes laboratórios do mundo, com estratégias científicas distintas, apontam que as mudanças climáticas em curso já estão próximas de um ponto sem volta e que o desmatamento e a degeneração das florestas são alguns dos seus principais motores. "Daqui dez ou 15 anos, as mudanças que se instalarem é que determinarão como será o clima nos próximos séculos", disse. E as conclusões dos estudos científicos mais recentes, apresentados por ele, não são boas.
A questão climática, segundo Artaxo, é complexa e seus fatores estão extremamente conectados uns com os outros. "Dois meses atrás, foi publicado um estudo mostrando que o que se faz aqui, na Amazônia, afeta criticamente a precipitação no Himalaia, que provê água para um 1,6 bilhão de pessoas. Portanto, isso mostra que a atmosfera é uma entidade única e tudo está conectado", afirmou.
Na Amazônia, o ponto de inflexão é a capacidade da floresta de se sustentar por si própria. O processo de transição, levado pelo desmatamento e a mudança do clima, já alterou vários aspectos do seu ecossistema. Um deles é a fotossíntese, processo realizado pelas plantas para a produção de energia, no qual a captura de CO2 é essencial. "Sob o estresse de temperaturas mais elevadas, a quantidade de gás carbônico assimilada pela fotossíntese da floresta está diminuindo drasticamente", disse.
O que está sendo observado em vários estudos, segundo Artaxo, é que o fluxo líquido de carbono da Amazônia está diminuindo. "Quando eu comecei os estudos na região, 30, 35 anos atrás, a Amazônia estava absorvendo 1,5 tonelada de carbono. Agora, esse fluxo é praticamente zero. É zero por causa, principalmente, da morte das árvores que está aumentando. E está aumentando por quê? Por causa do crescimento dos extremos do clima, do aumento da temperatura e da menor precipitação de chuvas."
Enquanto na Sibéria, exemplifica ele, o sistema de captura e remoção de CO2 na atmosfera é muito dinâmico, com diferenças no inverno e no verão, na Amazônia e na floresta tropical da África o reservatório de CO2 é permanente. Ou seja, uma vez dispersado, o CO2 ficará permanentemente na atmosfera.
Termine de ler esta reportagem na Folha de S. Paulo
Com espaços fluidos, escola integra a natureza à aprendizagem
09/07/2026
Eucalipto se tornou vilão de incêndios florestais
09/07/2026
Novo estudo indica por que a Antártica congelou milhões de anos antes do Ártico
09/07/2026
Tinta refletora reduz o calor em moradias vulneráveis na África
09/07/2026
Europa pode enfrentar semanas mais mortais com nova onda de calor, alerta OMS
09/07/2026
6 dicas para reaproveitar sachês de sílica
09/07/2026
